Ode a um Hobby

[Aviso aos navegantes: este post é fruto de uma brisa bem canábica, muito zen. Pode não fazer sentido para o mundo, mas vem do fundo do coração. / eu juro que um dia paro de misturar inglês e português, detesto esse hábito. vou passar a misturar alemão, que é mais cult. ]


Considero blogs algo tão 2005, tão alvejado pela descompostura do vídeo e da imagem, do Flash e do HTML5, pelos webdesigners, tão envelhecido pelos grandes sites de conteúdo e entretenimento, pelas redes sociais e, de modo geral, pelo resto da internet como um todo, que me sinto seguro - e muito feliz - para dizer que as pessoas já se esqueceram do que significam.

Acesso a internet desde o começo dos anos 2000, desde os 4, 5 anos de idade, talvez, e me lembro de quando os blogs ainda eram uma coisa. Além dos blogs do Club Penguin, que eu costumava acessar até 2012 mais ou menos (quando todos eles, o quê, faliram?), eu costumava acessar assiduamente blogs feitos por pessoas, enquanto diário, meio de troca de experiências, humor, e outras coisas que passavam por suas cabeças; mas sempre feito por uma pessoa: um mané com algum PC de tubo na mesa escrevendo parágrafos de texto corrido para o mundo cyberchasico lá fora, sem esperar que alguém estivesse mesmo ouvindo. Naturalmente, desde que não dava pra fazer mais muita coisa nas interwebs daquele tempo (as pessoas usavam Orkut, pelo amor de deus, ir fuçar na internet era a coisa mais imperativa pra se distrair), esses blogs vez por outra eram bastante acessados.

Lembro-me de três bem interessantes. Um é o do desenhista Luís Di Vasca, que conta suas desventuras com clientes postando conversas por e-mail que tinha com eles, onde todo o tempo o autor zuava e ironizava se o cliente pedisse algum favor absurdo, não fosse claro do que queria, ou não quisesse pagar de acordo. Outro é o originalíssimo Diário da Foice, onde quem posta é a própria Morte, dissertando sobre seu trabalho de algoz da humanidade - os textos incluem "O Dia em que Participei de um BBB", "A Cena Excluída de Bambi" e "Naufrágios: Como Escolher Um?". O terceiro é o chamado CulpaDela, aparentemente agora desativado, que contava as histórias amorosas e sexuais dos pseudônimos Don Juan e Casanova, de onde acho que peguei por simbiose a pouca heterossexualidade da qual sou provido.

O conglomerado de fibras ópticas e hiperlinks que chamamos de internet era outro por aquelas épocas. O MySpace tinha acabado de morrer, as pessoas realmente faziam fotolog, o BuddyPoke era a sensação, investir em sites de conteúdo para ganhar dinheiro (o que hoje é considerado uma droga) era considerado daora, prafrentex, ou quando não, só coisa de maluco; e as pessoas ainda dividiam com a televisão o tempo que gastavam com o virtual.

Por isso e por aquilo outro, e eu tô falando sério, o blog pessoal virou vintage. Virou algo underground (só não espalhe aos malditos hipsters). Quem acessa blogs é quem gosta muito ainda, agrada-se de algo mais ou menos nostálgico, meio diário, meio literário, e esperançosamente ou não, público. 

Não estou falando de tumblr, ou daquela coluna de jornal daquele pseudointelectual midiático que você gosta, nem do 9GAG ou BuzzFeed, ou do Jovem Nerd, muito menos vlogs estilo PC Siqueira, blogs de quadrinhos, tampouco algo muito parecido com o que eu faço aqui. Não, não. Você tem que visualizar, tem que sentir o clima. Pessoas absolutamente anônimas, weirdos, nerds, escrevendo em norma culta da língua portuguesa, por prazer, sobre coisas ridiculamente comuns, sentimentos ou impressões que se intercambiam, no meio da barulheira psicodélica sem sentido nem objetivo que é a internet.Você tem que imaginar estas pessoas tirarem o seu tempo, se sentarem e redigirem com devido cuidado, parágrafos e parágrafos de frases corridas (não poemas, não vídeos, não fotos, aliás, muito texto); simplesmente para o ar, com o objetivo de se comprazer em fazê-lo, e talvez encontrar algum maluco internet-fuçante solitário por aí que comentasse, mandasse email ou add no Orkut, por algo em comum que tivessem, ou que simplesmente também escrevesse.

Esta cultura não existe mais, e como você bem sabe ou deveria, quando eu digo algo tão hiperbólico como isso eu na verdade adiciono um "quase" antes, que não me obrigo a colocar pra fora, logo, quero dizer que esta cultura já não é mais tão forte como na década passada. Foi suplantada pela melhoria da situação econômica da sociedade (quem sabe agora eles voltam? #ForaTemer), pelo Twitter, pelos memes. E, talvez, porque não, também pelo Tinder.

A hipótese mais provável para minha atração por este tipo de coisa é o desenvolvimento de tarefas de redação que eu tinha no Fundamental, sempre em estilos diferentes, e sempre apresentadas ou lidas em sala de aula (quando, aliás, eu fazia muito sucesso muito bem obrigado). Ou ainda, a especial atenção de Dona Adelaide, a saudosa Dona Adelaide, bibliotecária da escola, que me indicava e conversava comigo sobre livros. Bons tempos aqueles da série vaga-lume e clássicos da literatura universal que eu levava para casa e lia em questão de horas, sem o vício dispersante das redes sociais.

Por isso eu espero que algum internet-fuçante; sim, ele(a), não você que só conhece meu blog porque já foi linkado numa rede social (as in "te obriguei a acessar"), encontre esta página entre seus surfs e comente um "oi". Pelo simples, banal e virtual motivo de se fazer amizade, camaradagem, bro understanding de weirdos cibernéticos.

Seja bem-vindo, Cabrito !

Compartilho um amor muito bonito e sincero pelo seu hobby ! ;)