sexta-feira, 5 de junho de 2015

SERPENTE DE SANGUE : Capitulo 1


Capitulo Um

O resplandecer de um novo dia

Por cima dos altos edifícios o sol nasce mais uma vez, esplendoroso na imensidão dos céus azuis, mesmo que esteja escondido em meio às nuvens cinza de um dia chuvoso. Por todos os lados pessoas vem e vão, sem parar nenhum instante, nem ao menos para sentir o sol em seus rostos ou as gotas refrigeres da chuva. Estão apressados demais para se importar com as pequenas coisas da vida, as que trazem felicidade, direção ou algum sentido. Todos a cada passo estão se distanciando da condição real de suas vidas e transformando elas em uma mentira.
Ao levantar os olhos não conseguimos ver o sol, o céu e nem mesmo as nuvens. Tudo que conseguimos ver nessa imensa metrópole são luzes para todos os lados, milhares de carros, prédios, edifícios e arranha céus. Becos escuros e vielas sujas, e sempre que desviamos o olhar não enxergamos nada além de policiais corruptos, políticos medrosos, ladrões gananciosos, viciados maníacos e assassinos cruéis. Em todos os lados para que se olha só se podem ver resquícios de uma linda e agradável cidade onde havia integridade, respeito e justiça. Em meio a toda a sujeira de uma cidade decadente existem aqueles que surgem em meio a milhares para fazerem a diferença.

Verão de 1995

Em uma noite sombria e chuvosa da cidade de Munin City, numa casinha, um bairro pobre se torna palco de uma tragédia. Em meio a latidos de cães ao fundo, buzinas de carros e a voz de pessoas discutindo, o som estrondoso de um tiro é ouvido. Após alguns segundos de silencio o choro de uma criança é a única coisa que pode ser ouvida. Uma mulher desesperada corre para a residência vizinha, a fim de descobrir o que tinha acontecido na casa dos William. Ao visualizar a cena a mulher só tem como objetivo, correr, correr para cobrir os olhos do pequeno garotinho que chorava sem cessar e em prantos sacudia sua avó dizendo:
−Vovó, vovó... Levante vovó... Porque não levanta vovó? Os homens maus já foram. − Repetia ele sem parar.
− Meu querido venha comigo, tudo vai ficar bem. ­− disse a mulher com a voz trêmula e muito assustada.
−Mas minha vovó, porque ela não levanta? Ela tem que acordar. − disse o garotinho com os olhos cheios de lagrimas ao olhar para a mulher.
−A sua vovó não vai acordar querido, ela... Ela não pode levantar, ela... Está morta. – disse a mulher com grande pesar em sua voz.
−Não, ela tem que levantar. Por favor, me ajude a levantar minha vovó. − disse ele gritando ao se voltar para sua avó sacudindo-a com força.
−Vamos Jack venha comigo, você precisa sair daqui. Vou te levar até minha casa e você pode tomar banho. Olhe pra você, está cheio de sangue. − disse ela quase como implorando a ele.
Por fim o pobre garoto aceitou ir com a mulher, e enquanto ele tomava banho, ela, ligava para polícia. O primeiro a atender ao chamado é o tenente Brown, pois ele estava bem próximo daquele local. Ao abrir a porta da viatura sai um homem alto de uniforme, com cabelo castanho escuro cortado num estilo militar e um bigode que cobria seu lábio superior. Mas o que mais chamava a atenção eram seus olhos castanho mel. Ele caminha em direção à porta da mulher que o espera, e ao chegar até onde ela estava ele diz:
−Foi daqui que foi relatado um homicídio? – disse olhando fixamente para os olhos da mulher que estava visivelmente abalada.
−Sim, pode entrar policial. – disse ela apontando para dentro de sua casa de maneira bem humilde.
−Senhora, qual é o seu nome? − disse ele de maneira bem seria entrando na residência.
−Meu nome é Ester. – disse ela tentando se acalmar.
−Eu sou Tenente Brown, pode me informar exatamente o que aconteceu? – disse ele muito intrigado com o estado emocional da mulher.
− Na verdade eu... Eu não sei. Eu ouvi um som de tiro corri para casa dos William e vi a Sra. William caída no chão, ela estava toda ensanguentada... E o garoto, o pobre garoto ao lado dela. – disse ela sem conseguir conter as lágrimas.
−Um garoto? Qual é a idade desse garoto? – disse ele com os olhos cheios de pesar.
−O Jack? Ele deve ter por volta dos oito anos.
−Será que eu posso falar com ele? Ele deve estar com muito medo. – disse o tenente com um instinto paterno.
−Sim, ele está no quarto com minha filha Clara. – disse ela apontando para as escadas e acompanhando o Tenente Brown.
Ao chegar ao quarto o Tenente Brown fica pasmo por alguns segundos, imóvel e sem palavras. Ao por seus olhos naquele garotinho ele sabia que precisava ajudá-lo. Era um garoto pequeno, bem menor do que os outros da sua idade. Um garoto bonito é claro, porém mais jovem do que o policial poderia imaginar. Sua pele era branca e tinha cabelos encaracolados como fios de linho feitos do mais puro ouro.  Seus olhos grandes verde avelã encaravam o homem alto sem cessar, com um brilho de esperança envolto em lágrimas de desespero. Sentindo a dor daquele pobre garoto o Sr.Brown não conseguiu evitar se penalizar, ao que começou a falar com aquele garoto.
−Você deve ser o Jack, estou certo? – disse ele com um sorriso no rosto.
−Sim eu sou o Jack. Quem é você? – disse ele sem tirar os olhos dele nem por um instante.
−Meu nome é Thomas... Thomas Brown. Eu sou tenente de polícia, e estou aqui para te ajudar. – disse ele olhando fixamente nos olhos do pequeno garoto.
−Você veio pegar os homens maus? Pode fazer minha vovó levantar? − perguntou o garoto com muita esperança nos seus olhos.
−Não eu não posso fazer sua avó levantar, ela se foi, mas eu prometo que ninguém mais vai fazer mal a ela e nem a você. Eu e você vamos pegar os caras maus, por isso preciso da sua ajuda. − Argumentou ele ajoelhado e olhando nos olhos do pequeno garoto.
− O que eu preciso fazer para ajudar a pegar os homens maus?− perguntou Jack sem hesitação.
− Para começar pode dizer para mim o que aconteceu na sua casa, amigão? – disse ele se questionando ainda sobre o que havia acontecido.
− Eu não fiz nada, estava no meu quarto, de castigo de novo. Vovó estava gritando, eu desci para saber se ela estava bem. Mas ela não estava sozinha... − disse ele com medo.
−Quem estava lá com sua vó? – disse ele pacientemente.
− Eu não sei, eu não os conhecia. Tinha dois homens, um era magro com uma tatuagem no rosto. E o outro tinha o cabelo grande com olhos vermelhos. – disse o garoto tentando se lembrar do que tinha visto.
−O que eles queriam Jack? – perguntou ao garoto que ainda parecia abalado.
−Eles gritavam muito, queriam o dinheiro da minha vovó. Mas quando eu apareci eles correram e eu ouvi um barulho. Depois minha vovó caiu no chão e não levantava mais. – disse ele chorando muito ao lembrar-se da cena.
− Jack, eu vou encontrar esses homens. Se você os visse de novo, conseguiria reconhecê-los?  – disse o Tenente tentando consolar o garoto.
−Sim, mas eu não posso. Eles vão me machucar. – disse o garoto com medo.
−Jack eu te prometo ninguém nunca vai te machucar. – disse o Tenente com segurança em suas palavras.
Naquele momento Jack soube que podia confiar no Sr.Thomas. Com o passar dos anos eles se tornaram como pai e filho, mestre e aprendiz. Jack cresceu e se tornou um homem forte e responsável, bom... Não tanto quanto o Sr.Thomas gostaria. Mas apesar de sua imaturidade, ele se tornou um homem brilhante. Jack se tornara o detetive mais renomado em todo o país, pois havia resolvido inúmeros casos que para maioria parecia inexplicáveis.
Dias atuais
O sol nasce e invade a janela do quarto e ao tocar o rosto de Jack ele acorda para ir ao trabalho. Mais uma vez atrasado, ele levanta depressa e sem muita preocupação com sua aparência toma um banho, escova os dentes, coloca uma roupa mesmo que amarrotada e poucos segundos antes de sair olha no espelho, olha fixamente para si mesmo, mesmo que não se importe com sua vestimenta, procura algo nele mesmo, tentando achar alguma solução para o enigma que o mais perturba. Ele o repete mais uma vez naquele dia, e ao olhar em seus próprios olhos ele diz: “Quem sou eu?”. Mais uma vez sem resposta ele desvia o olhar para o relógio e tem de sair correndo, pois está realmente muito atrasado. 
Ao chegar ao departamento de polícia, Jack cumprimenta os seus colegas de profissão, senta-se, coloca os pés em cima da mesa e fecha os olhos. E em alguns minutos o chefe de polícia chega e o surpreende.
−Mais uma vez de ressaca, loirinho? – perguntou ele num tom sarcástico.
−Tinha que festejar, aliás, quem daqui consegue resolver cem casos em menos de três anos? Eu mereço um agrado. − disse sem mudar sua expressão.
−Merece mesmo uma folguinha. – falou olhando ao seu redor.
−Que bom que pensa assim, porque as cervejas estão na sua conta. − disse ele sorrindo e levantando em direção ao bebedouro.
−Não faz muita diferença, eu já estava te devendo mesmo. – disse ele murmurando raivosamente.
−Mas é claro que eu me lembro disso, você meu caro, duvidou que eu fosse resolver o caso do “Coelho Gelado.” − falou gabando-se.
−E eu ainda não entendi como você fez isso. – disse ele questionando-se.
−Ah, é bem simples depois que você descobre o segredo, eu seria um estraga prazeres se te conta-se. – disse ele gargalhando em deixar mais uma vez o chefe de polícia confuso.
−Quase ia me esquecendo. A Tenente Taylor quer você em uma cena de crime agora. – disse ele olhando em uma lista de papéis que segurava.
−Porque ela não me ligou? –disse ele voltando atrás e olhando no rosto do chefe de policia.
−Ela disse que você não atende o celular. – disse o chefe meio confuso.
−Isso deve ser porque eu não quero falar com ela. –disse ele num tom irônico.
−Ela disse que vai gostar desse caso, parece que tem uma bela ruiva lá. – disse ele sorrindo.
−Nesse caso em cumprimento do dever, estou indo pra lá agora. − disse ele pegando suas coisas e correndo para seu carro.

A morte de Afrodite

Ao avistar a casa, Jack fica intrigado. Ele nunca tinha visto tantas viaturas em um lugar só. Ao parar o carro Jack tenta lembrar-se de algum tempo em que ele não estivesse fazendo isso, e não consegue se lembrar. Ele tenta esquecer isso e se concentrar, sai do carro e se depara com a Tenente Taylor que o aguarda. Era uma mulher incrivelmente bonita, sua pele era branca e delicada com cabelos negros e cacheados a altura dos ombros. Seus olhos eram intensos e verdes com cílios longos e pretos que faziam seu olhar muito mais acirrado. Seus lábios vermelhos podiam ser vistos a distancia como o mais lindo rubi carmesim. Ela estava vestida impecavelmente, seu uniforme não tinha nenhum amaçado ou mancha. Há quem diga que ela tivesse toc*.
*Toc: Transtorno obsessivo compulsivo.
−E aí? Onde está a ruiva? –diz Jack com um sorriso sarcástico.
−Morta!− diz ela sem a menor expressão no rosto.
−Ah! é sempre assim, porque não disse que ela estava morta antes? – disse ele resmungando.
−Porque você não atende o celular? – disse ela nervosa.
  −É claro que eu não atendo o celular, quem quer ter essa conversa? – pergunto sarcasticamente.
−Porque estamos tendo essa conversa? Você tem um trabalho pra fazer. − disse ela tentando fazer com que Jack ficasse focado.
−Está bem, mas espero que seja interessante. – disse ele tentando se conformar.
Ao entrar na cena de crime era impossível não olhar pra ela, mas também insuportável olhar ao saber o que se estava vendo.  O corpo estava lá, em pé, parado e coberto de gesso, era uma silhueta feminina nem gorda nem magra, sua barriga era sexualmente acentuada e arredondada. Um corpo branco e delicado com ombros inclinados e um rosto suave e longilíneo, as únicas partes do corpo que não estavam cobertos por gesso eram seus olhos que gritavam em constante agonia mesmo depois da morte, seus longos e lindos cabelos ruivos desciam encaracolados pelas suas costas, o que tornavam difícil de não serem notados, pois os fios desciam de sua cabeça até cobrir sua genitália junto a sua mão esquerda. Sua cor era vermelha escarlate que era ressaltado pelo sangue que escorria de seu coro cabeludo.  Embora fosse óbvio que o corpo estava coberto de gesso algo que chamava mais a atenção era o sangue que escorria pelos buracos no gesso, o maior estava localizado em seu útero. Além dessa cena horrível havia manchas de sangue na parede, provavelmente o da vitima, que embora estivesse um pouco borrado pelo escorrimento natural do sangue formava formas humanas.
Ao entrar na casa, Jack fica perplexo, mas se recusa a demonstrar isso para mais alguma pessoa. Ele nunca havia visto algo do tipo em toda sua carreira como detetive, mesmo os casos mais brutais não eram tão horripilantes como esse. Ele não podia demonstrar medo agora, ele tinha que saber o que havia acontecido, e depois de alguns minutos de silencio Jack começa a falar.
−Esplêndido. Brilhante. Olha só pra isso: que tipo de mente doentia conseguiria suportar criar isso? A parede tem um quadro pintado com sangue, isso não é incrível? É sim, incrível!− fala ele tentando agir naturalmente.
−Não está feliz com isso? Ou está Jack?− diz Taylor um pouco assustada.
−Eu...? Eu não Srta. Taylor. Pareço que estou animado? –diz ele tentando parecer engraçado.
−Na verdade você transpira excitação, e me chame de Tenente Taylor. – diz ela repreendendo Jack.
−Tenente Taylor me perdoe, mas isso é o que você desencadeia em mim. – diz ele sorrindo.
−Devia começar a trabalhar logo a não ser que queira perder seu distintivo por assédio. – disse ela mais uma vez com uma cara séria e um pouco nervosa.
−Já estou trabalhando nesse caso desde que cheguei, não é esse grande decote que vai me atrapalhar. Bom, como eu dizia, vocês olham pra parede e veem o que? Quase nada, afinal estão muito focados na Afrodite para perceber que o assassino deixou sua assinatura no canto inferior esquerdo do quadro. – disse ele com um ar de superioridade.
−Como assim? Só tem um borrão, porque foi pintado com sangue, que escorreu deixando a pintura totalmente irreconhecível. – disse ela um pouco confusa.
−A secagem é gradual, a parte mais seca foi pintada primeira. – explicou ele com pouca paciência.
−Então se você estiver certo, o que foi pintado? – pergunta ela mais uma vez tentando se situar.
−É o fundo do quadro, Vênus fica no centro, afinal é o nascimento dela, ou a morte, é um símbolo de beleza e perfeição divina. Acho um elogio da parte do assassino. – explica ele com um pouco de paixão à história.
−Ele a matou e eu tenho certeza que nenhum elogio é bem vindo. Mas você falou sobre uma assinatura, que assinatura é essa? – pergunta ela querendo que ele seja mais preciso.
−Vamos por parte Tenente Taylor, eu ainda não terminei. – diz ele não querendo ser interrompido.
−Então ande logo, o lugar tem que ser fechado para a perícia. – diz ela apressando ele.
−Como eu estava dizendo, atrás estão Zéfiro e Clóris, os amantes que sopram o ar da paixão que perfumam os mares. A direita tem Flora, a deusa das flores que representa a primavera, tempo de renovação. Lindo, não é? – pergunta ele inocentemente.
−Sabe que tem um cadáver em forma de uma estátua, sangrando por um buraco imenso na barriga? Está achando isso bonito? – diz ela indignada.
−Sim, esse era o objetivo pelo qual o assassino fez essa... Essa obra de arte, ele queria que fosse perfeito dentro de suas condições. Entenda que, se ele tinha o objetivo de mostrar beleza, tem algo que não se encaixa no quadro. – diz ele incitando a dúvida.
−O que é que não faz parte? – pergunta ela quase esgotada dessa conversa.
−Aquela serpente pintada de sangue engolindo a própria cauda. Bizarro, não é? – Soltou uma risada sínica, porém abafada.
A tenente Taylor, admirada por não ter reparado, faz uma pergunta:
−Por que essa serpente de sangue? Por que isso tem que ser a assinatura dele?
−O nome correto é Ouroboros. – diz ele corrigindo- a com um ar de superioridade novamente.
−Está bem, Ouroboros... Por que isso? – pergunta ela nervosa.
−Não prestou atenção no que eu disse? É a assinatura dele, o símbolo representa algo, algo que o define como pessoa ou artista ou os dois. – disse ele tentando se fazer entender.
−Artista? Ele é um assassino e deve ser tratado como tal. O que o Ouroboros significa?  − diz ela mais nervosa ainda.
 −Ouroboros é um símbolo usado na mitologia que representa começo e fim, a vida e a morte, a criação e a destruição, uma renovação e a essência da eternidade. – diz ele sem mais prestar atenção em nada.
−Lindo e poético – disse ela sarcasticamente.
−Achou mesmo?− perguntou ele inocentemente.
−Não, estava sendo sarcástica. – diz ela dando um pequeno sorriso.
−Que pena. Seria maravilhoso se a gente se entendesse e eu poderia chamar você pra sair, quem sabe tomar um café. – disse ele com um sorriso no rosto e olhando nos olhos da Tenente.
−Nós acabamos de tomar um café. – disse ela sem entender.
−E então, como foi pra você? – diz ele gargalhando.
−Jack, se concentre! Vamos falar com a senhora que encontrou o corpo. –disse ela apontando a casa ao lado.
−Precisamos mesmo? Você sabe que não gosto de falar com os idiotas. – disse ele segurando nos ombros da Tenente.
−E eu ainda me pergunto por que você tem só um amigo. –disse ela colocando a mão na cabeça.
−Mas as pessoas só atrapalham o caso! − disse ele desanimadamente
−Cale a boca e vamos conversar com ela. – ordenou ela.
Eles se dirigiram a casa ao lado e encontraram uma mulher sentada em um sofá ainda em estado de choque, com os olhos inchados de tanto chorar. Ela tinha um rosto redondo e algumas rugas, devia ter por volta dos cinquenta anos de idade embora seu vigor aparenta-se ter menos. Seus cabelos já possuíam uns fios brancos, porém, era evidente que vaidade não passava despercebida por ela. A porta foi aberta e a mulher insistiu que a Tenente Taylor e o Detetive Jack entrassem pelo que Taylor fala.
−Senhora, estamos aqui só pra perguntar... − ela tentou falar
−Se foi você quem matou a ruiva ao lado? – Interrompeu Abigail
A isso tanto a senhora Abigail como T.Taylor ficam sem palavras e olham para Jack assustadas com a pergunta.
−Ué. Não é pra isso que estamos aqui? – fala ele ironicamente.
−Fique quieto! Não estamos aqui pra isso, senhora Abigail. Só queremos fazer algumas perguntas que nos ajudem a resolver o caso. − Refuta ela.
−Entendo... é para isso também. –concorda ele não muito feliz.
−Eu não sei de muita coisa, só a encontrei  hoje de manhã. –diz Sr.ªAbigail sem muita certeza.
−Porque foi na casa dela hoje? –Pergunta T.Taylor.
−Eu sabia que ela estava viajando, mas ontem ouvi uns barulhos estranhos, pensei que ela já havia voltado. − Responde Sra. Abigail pensando na noite anterior.
−Não desconfiou de nada ao ouvir barulhos estranho? – Pergunta T.Taylor desconfiada.
−Na verdade... Ela sempre sai nesse tipo de viagens e sempre volta acompanhada. – fala Sr.ª Abigail
−Tipo quem? O pai dela? – fala Jack em um tom irônico.
−Jack?! Ela está falando sério. – Zangada, fala T.Taylor olhando para Jack.
−Ela sempre trás homens bonitos, fortes e altos. –diz Sr.ª Abigail gesticulando muito.
−Alguém se apaixonou. − Diz Jack sorrindo bastante.
−Muitos homens? – Pergunta T.Taylor ignorando Jack.
−Vários. Ela estava sempre viajando. – fala Sr.ª Abigail com um sorriso de canto de boca.
−Claro, ela era modelo. – fala Jack levando as mãos à cabeça.
−Como o senhor sabe que ela era modelo? – Pergunta Sr.ª Abigail intrigada.
−Ela tinha várias fotos tiradas por profissionais, um guarda roupa grande e um belo rosto, uma ruiva muito gata. – responde ele feliz, pois ninguém nunca quer saber como ele sabe as coisas.
−E só precisou disso? –Pergunta Sr.ª Abigail impressionada.
−Fica bem fácil descobrir quando a Tenente folheia o arquivo da morta sem cuidado nenhum. − Responde Jack rindo.
−Ei! Eu não faço isso. − fala T.Taylor nervosa.
−Ela faz sim!− sussurra Jack para Abigail
−Será que a senhora possui alguma informação que possa nos ajudar? – fala T.Taylor tentado ignorar as brincadeiras de Jack.
−Acho que não, já falei tudo que sabia. – fala Sr.ª Abigail dispensando os dois.
−Então vamos Jack. − T.Taylor convida Jack para ir embora da residência.
−Espera ai. Você tem cara de uma vizinha fofoqueira típica, deve saber muito mais de uma pessoa que levava uma vida tão agitada. – diz Jack voltando atrás e segurando a porta.
−Como assim? Eu não estou entendendo. – Responde Sr.ª Abigail disfarçando.
−A senhora está entendendo sim. Você passa sua vida bisbilhotando as pessoas. Acho que depois que seu marido te largou, você tentou preencher sua vida olhando as outras pessoas, o que parece ser bem mais divertido. – diz ele olhando direto para os olhos da Sr.ª Abigail.
−Mas que ultraje. – diz Sr.ª Abigail revoltada com as palavras de Jack.
−Jack? Isso é jeito de tratar uma senhora? – fala T.Taylor tentando conter Jack.
−Me desculpe. Esqueci que ao utilizar provas fazem as pessoas ‘piarem’ direitinhas. Pois bem, em seu dedo anelar da mão esquerda existe uma marca que circunda seu dedo mais claro do que a cor da sua pele, isto indica a retirada da aliança. Mas você é de uma família tradicional italiana, o costume é usar sempre a aliança a menos... Que você tenha tirado recentemente. Um divórcio com certeza, afinal, numa casa tão grande não há muitas fotos de família, e as que ainda se encontram nas molduras estão cortadas e faltando partes. E, além disso, percebi o binóculo colocado ao lado da sua janela, me parece que bisbilhotar se tornou um vício. – fala Jack sem nem respirar, rápido e com um brilho estranho no olhar.
−Eu não estou fazendo nada de errado. – responde Sr.ª Abigail tentando se justificar.
−Ela confessou. Prenda ela imediatamente. – fala Jack apontando o dedo para Sr.ª Abigail.
−Eu vou ser presa? – fala Sr.ª Abigail assustada.
−Não, não, a senhora só precisa nos ajudar. – fala T.Taylor tentando acalmar a situação.
−Tudo bem. Ela tinha um namorado agressivo. Terminaram há pouco tempo, ele descobriu das visitas que ela recebia sempre. – fala ela tentando ajudar com alguma coisa.
−Qual o nome dele? – perguntou T.Taylor com um caderno na mão.
−Alguma coisa como Leroy. – fala Sr.ª Abigail tentando se lembrar.
−Isso já é o bastante por hora. Vamos procurar alguém com esse nome na lista de contatos dela. − diz T.Taylor olhando para Jack.
−Se descobrirem, poderiam me falar quem foi? – pergunta Sra. Abigail com um pouco de esperança.
−Volte aos seus binóculos, abutre! – fala Jack, saindo da casa.
Então Jack saiu da casa da mulher enquanto T.Taylor pedia desculpas por ele. Ao sair da casa T.Taylor corre para falar com Jack.
−Isso foi ridículo. – diz T.Taylor colocando as mãos na cintura.
−Você queria algo pra começar, agora tem. – diz Jack abrindo um pirulito e colocando na boca.
−Sério que você colocou um pirulito na boca? – diz ela inconformada.
−Eu gosto de pirulitos. − diz ele apontando um no rosto da T.Taylor oferecendo para ela.
−Não obrigado... Espera ai, eu não esqueci o que você fez lá dentro. – falou ela em voz alta.
−Como assim? Eu não fiz nada de mais. – disse ele como que não entendendo.
−Mas não precisava tratar a mulher daquele jeito. –diz ela sacudindo as mãos.
−Eu tenho advogada. – disse ele com muita segurança.
−A Rose te faz um favor quando você arruma problemas, mas ela não trabalha pra você. –disse ela tentando botar juízo na cabeça de Jack.
−É para isso que servem as irmãs. – fala ele justificando-se.
−Você podia dar uma folga a ela. – argumentou ela.
−Ela só tem ganhado prática no mundo real, é bom tirar a cara dos livros às vezes. – falou ele girando o rosto para os lados.
−Como é que o Sr.Brown conseguiu te aguentar por tanto tempo? – disse ela suspirando alto.
−No trabalho eu sou fácil, difícil mesmo foi quando eu era criança. – disse ele sorrindo ironicamente.
−Deus deve amar muito o Sr.Brown por adotar uma peste como você. – disse ela dando um sorriso de meio de boca.
−Há quem goste desta cabeleira loira, dourada e nórdica... Quase um deus viking. – brincou ele exaltando seu ego.
Você deveria acompanhar o corpo até o Centro médico, já causou muito problema por aqui. – diz ela como que dando uma ordem.
−Eu não sou legista. −Responde ele sem hesitação.
−Não, mas seu amiguinho é. Deveria visitar o Evan, só ele para te suportar hoje. – disse ela dando as costas para ele.
−Tá... Eu vou, mas cuidado com a cena de crime, ela é diferente de todas as outras que já vimos. – diz ele em voz alta.
−O que quer dizer com isso? – pergunta ela intrigada.
−Estou dizendo que não é qualquer tipo de assassino. Senhorita, encontramos um Serial Killer! – diz ele com um ar mais sério.
−Temia que você dissesse isso.  – volta ela para ele receosa.
−Por quê? – pergunta ele fazendo uma cara de despreocupado.
−Por que agora você não vai sossegar, é o tipo de quebra cabeças que você vai amar. – falou ela segurando a cabeça simulando uma dor de cabeça.
−Não sei por que a preocupação. – falou ele abrindo a porta de seu carro.
−Por que você já não fica normal com casos normais, imagina com um caso como esse. – falou ela olhando para ele entre a janela.
−Eu estou bem Tenente, fique calma e cuide do seu trabalho. – falou ele acirrando um pouco os olhos.
−Eu só estou tentando ajudar, sei que sou bem durona às vezes, mas já trabalhamos juntos por seis anos e eu sei que você não tem andado bem. – falou ela com uma cara menos séria.
−Eu não preciso de ajuda! Cuide para que a cena não seja violada por esses imbecis. – disse ele aumentando um pouco o tom.
−Tudo bem, acompanhe o corpo até o Evan. Conversamos mais tarde. – falou ela batendo no teto do carro o mandando ir embora.
E então ele acelerou o carro e partiu sem olhar para trás, talvez fosse o clima ou a cena horrível e totalmente traumatizante que o deixou irritado. Porém, em horas como essa, é realmente uma boa ideia ir visitar o Evan no trabalho. Evan Quamar havia chegado a Munin City há seis anos e conhecia Jack há três. Antes de chegar à cidade ele morou sua vida inteira na Índia na cidade de Bangalore, uma cidade muito religiosa para um ateu. Evan cresceu levando tudo por um lado mais racional, até que conheceu Maya Lalit. Ele sempre a descreveu como a única que o fez acreditar na divindade, pois em meio a toda sua perfeição não havia a mais remota chance dela não ter sido esculpida por mãos divinas na mais bela Pedra do Sol.  Todos os dias Evan sentiu falta dela, e isso podia ser notado em seus olhos que outrora continham um brilho aceso e agora era esvaído aos poucos. Jack ao entrar no necrotério começa a falar.    
−E então como foi à noite com aquela louca desvairada? – falou Jack sentando ao lado de um dos corpos.
−Eu falei ontem que não sairia com ela e não saí. – respondeu Evan continuando a costurar o corpo em que trabalhava.
−Por quê? Ela não tinha pomo de adão como na ultima vez. – disse Jack gargalhando e empurrando a perna do corpo para ter mais espaço.
−Não. Por que você vive falando isso? As pessoas estão começando a acreditar. – disse Evan com uma risada de conto de boca.
−Mas agora falando sério amigo, já faz dois anos. Você deveria conhecer alguém, sair de casa. Quer dizer, não só para beber comigo. – falou Jack com um olhar preocupado e ainda insistindo em empurrar as pernas do corpo.
−Eu... Eu... Eu estou bem! Você não consegue entender, não é? Maya foi à única mulher que tive na minha vida e eu quero que as coisas continuem assim. – disse Evan um pouco trêmulo mas ainda firme.
−Está bem, mas tenho certeza que Maya não ia querer que você ficasse sozinho. – disse Jack erguendo as sobrancelhas.
−Eu não estou sozinho. Tenho você. – disse Evan sorrindo enquanto retira seus óculos.
−Viu, é por isso que as pessoas acham que você é gay. – falou Jack sorrindo.
−Você veio aqui só para fazer piadas ou tem algum trabalho para mim? – perguntou Evan um pouco irritado.
−Bom. Está embrulhado pra presente na entrada. – Jack ergueu as sobrancelhas enquanto passava a mão na cabeça.
−Não sei por que tanto alarde, não deve ser nada que eu não tenha visto. – falou Evan duvidando da seriedade da situação.
−Eu não sei você, mas eu fiquei impressionado com tanto... Entusiasmo do assassino. – falou Jack entredentes.
E então eles se dirigiram até porta. Evan foi à frente para abrir a porta e Jack permaneceu sentado ao lado do cadáver da maca. Ao abrir a porta Evan tenta ignorar o horror mais ainda assim é a coisa mais assustadora que já havia visto.
−Gesso? Tinha mesmo que ser gesso? – fala Evan um tanto conturbado.
−Mas você tem uma serra, vai dar tudo certo! – fala Jack se levantando da maca.
−Por quê? Por quê? Isso não faz sentido. – murmura Evan nervoso.
−É eu sei, também fiquei revoltado. Essa garota era linda, devia ter visto as fotos. – Fala Jack botando a mão no ombro de Evan.
−Em primeiro lugar, por que você tem essa obsessão por ruivas? E em segundo lugar, tenho certeza que você ficou fascinado. – disse Evan ironicamente.
−Cara eu não sei, mas te juro, se eu achar uma ruiva eu não deixo fugir. – disse Jack olhando para o rosto de Evan sorrindo.
−Jack olhe para ela, que tipo de monstro faz isso com uma inocente? – disse Evan apontando para o corpo engessado.
−Cara, pode ter certeza, ela era tudo, menos inocente. – disse ele segurando uma pequena risada.
−Do que você está falando? – disse Evan intrigado.
−A vizinha fofoqueira disse que ela era uma vagabunda, traía o namorado toda hora. – disse Jack colocando as mãos na cintura.
−Namorado ciumento e agressivo? – perguntou Evan suspeitando o que havia acontecido.
−Sim, mas não acho que tenha sido o namorado. Porém, nossa querida “T.Taylor” esta seguindo essa pista que não leva a lugar nenhum. – disse Jack quase que zombando da T.Taylor.
−Por que você não se resolve logo com ela? – falou Evan insinuando algo.
−Do que você está falando? – disse Jack revirando os olhos.
−Deixa para lá, mas fiquei intrigado. Você disse que não acredita que seja o namorado violento, sei que você já bolou alguma teoria, então qual é? – disse Evan um tanto desconfiado.
−É simples, filho meu. – falou Jack engrossando a voz e depois rindo.
−Estou vendo que você está bem animado com isso, continue... Qual é a sua ideia? − pergunta Evan com olhos atentos.
−Violência doméstica mesmo que leve a homicídio não segue esse padrão. – responde Jack com convicção.
−Mas e se foi premeditada? – Pergunta Evan tentando argumentar.
−Não. Esse cara tinha um relacionamento duradouro com ela, ele deve estar muito zangado para cometer um homicídio tão elaborado. Transformar a garota em gesso deve ter demorado horas, quem sabe dias. – Responde Jack apresentando uma argumentação de maneira bem convincente.
−Se não foi o namorado, quem foi? – questionou Evan.
−Este trabalho é delicado e muito cuidadoso. Tudo foi feito por um motivo, a pessoa que fez isso teve prazer nisso. Ele encara assassinato como arte, só uma pessoa que sofre de algum tipo de transtorno de personalidade teria tal frieza. – argumenta Jack de maneira mais séria.
− Um sociopata? – pergunta Evan.
−Um psicopata meu caro amigo, entende como isso é serio agora? – Responde Jack colocando a mão no ombro de Evan.
−Tem medo que esse não tenha sido o último corpo que vamos encontrar? – Pergunta Evan com um olhar mais sério.
−Medo? Claro que não! Eu não tenho medo, na verdade é uma grande oportunidade. – respondeu Jack abrindo novamente o sorriso.
−Oportunidade? – Pergunta Evan.
−Claro! Eu conheci a morte há vinte anos, não tem como evitá-la. No fim, todos se rendem às mãos sedutoras da morte. Se não tem escapatória, não vale a pena fica chorando por isso.  A única coisa que importa é a solução do quebra-cabeça.  – argumenta Jack num tom mais sério.
−É daí que somos diferente Jack? A vida é o mais importante. Deveria aproveitar mais a pessoa que você ama, isso é o que realmente importa. – fala Evan que muda sua expressão facial instantemente.
−Calma ai. Não precisamos brigar. No final vamos cumprir o mesmo objetivo. – fala Jack colocando as duas mãos na frente de Evan.
−Jack, às vezes eu acho que estamos presos a isso, nos prendemos sozinhos nessa vida. Só temos um ao outro. Será que um dia vamos nos livrar desse pesadelo? – pergunta Evan com um olhar triste.
−É. Eu não sei. Estamos procurando algo que nos faça felizes para sempre. Já que não encontramos ainda, vamos comer. Com certeza é a resposta para a felicidade momentânea. – responde Jack abrindo um pequeno sorriso.
−Mas ainda não começamos a trabalhar no corpo. – fala Evan em meio à risada e um pouco confuso.
−Já está na hora do almoço, temos que trabalhar com cuidado nesse caso e temos que lembrar que a Afrodite ai já esperou a noite toda, pode esperar mais uma hora. – argumenta Jack sorrindo um pouco.
−Então eu quero um X-tudo! – responde Evan erguendo as sobrancelhas em um tom irônico.
−Você não é hindu? – pergunta Jack sorrindo um pouco.
−Hindu por criação, ateu por opção. – responde Evan sarcasticamente.
−Vamos comer no necrotério de novo? – Pergunta Jack preocupado.
−Eu vivi vinte e quatro anos num país tropical, com um clima infernal. Sem contar todas aquelas pessoas suadas e apertadas num só lugar. Tudo que eu mais quero é ficar no ar condicionado ligado no nível “você está de sacanagem”. – argumentou Evan sinceramente.
−Você que manda, Shiva. Falando nisso sempre quis te perguntar por que um deus masculino tem seios? – pergunta Jack entusiasmado.
−Como vou saber? A única coisa que me lembro dessa religião era o que eu lia nas revistas em quadrinho que meu pai comprava em Nova Deli. – responde Evan levantando as sobrancelhas numa expressão de incerteza.
−Então, como vai querer seu hambúrguer? – perguntou Jack.
−Morto de preferência, com muito bacon! – respondeu Evan sorrindo.
−Olha só quem ficou engraçadão. – disse Jack Rindo.
−Mas vá logo buscar. Temos um longo trabalho para fazer. Quero ver como vou fazer um corte em “Y” com todo esse gesso?! – fala Evan passando a mão em sua cabeça.
−Isso é com você, só sei que preciso tomar um bom uísque. – fala Jack já pegando suas chaves no bolso.
−Eu não posso beber em serviço e você deveria beber menos, sabe que está matando seus neurônios com isso – Evan reprendeu a Jack.
−Eu sou fruto de uma união de escoceses e irlandeses, sou preparado para isso. Tenho neurônios suficientes para beber pelos próximos 100 anos. – falou Jack antes de sair, deixando na sala só o eco de uma risada.
Com isso Evan olha ao seu redor e ao avistar novamente a mulher engessada ele percebe algo estrando em seus cabelos. Ele se aproxima mais e mais até perceber que havia algo na cabeça dela além de seus fios avermelhados. Algo estranho, e sem sentido. Será que havia ele encontrado uma pista do assassino? Isso o intrigou muito, deixando-o ainda mais ansioso para descobrir o que era aquilo e aonde isso levaria, ou melhor, a “quem”.