sábado, 30 de maio de 2015

Falácia da Incredulidade Pessoal

Esta é a continuação dos devaneios escabrunhosos do texto postado em tempos longínquos, já esquecidos pelos ares frenéticos que distorcem o tempo, presentes no mundo contemporâneo, chamado: A Cláusula Pétrea do Conhecimento

Caso alguém ligue, desculpe pela demora. Estava sem saco pra escrever algo de (in)útil ultimamente. 

Richard Dawkins. Famoso biólogo, escritor, divulgador científico e ativista antiteísta britânico. Este ser humano é um dos caras mais fodas deste planeta. Quem sabe de outros, também. Hoje ele ostenta uma cabeleira branca, cara enrugada e uma expressão de velhinho bonachão adorável, mas não se engane, ele pode trucidar os seus miolos, refazê-los, só para depois trucidar seus miolos de novo. Acredite, ele pode.

Usando uma argumentação incisiva, um humor (e sotaque! *-*) britânicos inconfundíveis e uma ironia absurdamente (... atraente?), ele, dentre outras atividades, expõe o ceticismo científico de uma maneira muito inteligente, porém argumentando contra a religião de maneira muito burra. Vamos falar "pouco inteligente", pra não ficar feio. Estamos jogando confete no homi, afinal de contas.

Mas hoje eu não vou falar sobre ele. Rá! Se fode aí. Porque aqui eu faço a porra que eu quiser. Só citei ele porque eu quis eu tenho dificuldades com o começo de todo texto que paro pra escrever.


Digo isto para dizer o seguinte: Certa vez estava este velhinho bonachão debatendo com um teólogo apologista cristão chamado John Lennox, um velhinho ainda mais adorável. E o segundo disse mais ou menos o seguinte:
"Você espera realmente que eu acredite que a capacidade de processar informações [que uma célula tem] apenas surgiu em decorrência de leis naturais, por acaso, sem uma mente? Bem, eu acho isso impossível de se acreditar".



Está aí a chamada Falácia da Incredulidade, pessoal. Quando não existe motivo para desconsiderar um raciocínio, e o particular fala mais alto do que a realidade sugere. É a ignorância voluntária, a preguiça de se depurar a complexidade de uma ideia. "Se é complexo, e eu não entendo, logo, deve ser mentira".



Um religioso de mente evoluída e atenta, ou até um dos mais babacas, pode vir e dizer "Mas é exatamente isso o que os ateus fazem", e ter todo um rol de argumentos pra esclarecer porque nós ateus não aceitamos Deus por teimosia escrachada.

Veja bem. O buraco é mais embaixo. Se o argumento religioso em questão não envolver pôr Deus onde a luz da Ciência ainda não alcançou (ênfase pro AINDA), ou dizer que a complexidade é obra de criação (o que se verifica empiricamente que não é), aí podemos conversar a respeito. Mas quando essas condições são satisfeitas, irremediavelmente o argumento religioso será uma espécie de Mito da Caverna malogrado.



Sabe o Mito da Caverna? Pessoas acorrentadas no fundo de uma caverna, onde só podem olhar para a parede, de costas pra entrada, só vêem as sombras do que acontece do lado de fora na parede da caverna, e quando um sai, volta e conta como tudo é de verdade, e se fode bonito com o pessoal lá de dentro? Então. Quando todos os argumentos acima citados falham, quando a racionalidade se esgota, quando o QI diz "foda-se essa merda, não sou pago pra isso", o religioso se coloca na posição do cidadão que saiu da caverna e viu como o mundo realmente é:
"Eu tive acesso à Verdade, eu saí da caverna, vocês ainda vêem sombras, e não a aceitam porque nunca tiveram um vislumbre da luz lá fora. Saí da Matrix, vocês ainda não."

Dizer que se teve acesso à Verdade do Universo, ou pior, que se está à serviço da mesma,  é a maior prepotência que um ser humano pode ter. Configura a mais pura desonestidade intelectual e a quebra da certeza na própria ignorância que nos une no propósito de dissipá-la. Porque uma mente sábia não lida com Verdades Absolutas, mas com a verificação dos fatos e a validade dos argumentos.


"Talvez não seja correto dizer que 'Não há deus', mas talvez seja correto dizer que não existe razão par acreditar que exista um".

Talvez Deus exista, morando em um argumento de tal forma que case com a Lógica e o que observamos da Natureza, argumento este que está ainda por ser descoberto.  Mas seria muito conveniente dizer que Ele existe pela simples fé que o argumento vai dar o ar de sua graça um dia. Primeiro se encontra este argumento, depois se diz com certeza de que ele (o argumento) e Ele (Deus) existem.

Eu uso sempre Deus como exemplo, porque eu perco muito do meu tempo e saúde mental discutindo o assunto, mas, na realidade, a Falácia da Incredulidade Pessoal perpassa todas as áreas do pensamento. Uma verdade sociológica ou política está sob a mesma ameaça galopante da Irracionalidade Voluntária. 

E é o dever do ser humano fazer ela galopar de volta pras trevas de onde veio.

 Até mais, cabritos andarilhos dos trilhos de trem ;}