quarta-feira, 19 de novembro de 2014

A Discórdia dos Peitos de Fora


Na semana passada irrompeu pelas mesas do refeitório da minha escola um assunto polêmico: mamilos. Mamilos são polêmicos. Aliás, acho que o nome correto é mamas, no caso. Apesar de eu gostar de dizer peitos mesmo. Enfim, como eu sou uma pessoa que gosta de polêmica (e de peitos), resolvi entrar de cabeça na discussão, dando minhas opiniões, posições, teorias e pitacos acerca da seguinte pergunta: “Qual a intenção de uma menina que usa decote nos seios?”.
Não foi algo simples de se fazer, devo admitir. Aliás, nem foi algo rápido. E em decorrência de não ser uma conversa nem simples nem rápida, as pessoas saíram de sua zona de conforto, e, como sempre quando isso acontece, soltaram sua rage expressando sua indignação ao fato de pensar ser obrigatório.
Afinal, a gente não consegue ficar um segundo sem pensar. Pensamos até dormindo. Mesmo quando pensamos em não pensar, estamos pensando. E tem muita gente incomodada com isso neste planeta. Existem pessoas que querem pensar o mínimo necessário, e por isso se incomodam com questões difíceis, debates prolongados e argumentação incisiva, como é o caso deste tema tão ululante que tratarei hoje. Portanto, se você está de mal com o seu cérebro, ou deseja poupar seus neurônios para a posteridade, devo avisar que este será um texto longo, que lhe fará refletir acerca de seus conceitos, ou ajudar a cria-los.
O debate se estendeu pela semana toda, várias pessoas participaram, inclusive tirando o sono meu e de alguns colegas, gerou briguinhas e comentários ácidos. Falamos com pessoas mais velhas e intentamos fazer uma pesquisa de opinião, para levantar estatisticamente uma visão geral. Ninguém saiu ferido.
A intenção geral da pesquisa e do debate é se perguntar não só o porquê de uma menina usar roupas decotadas, mas também saber a reação das pessoas, e o porquê de reagirem assim. Longe de ser uma atitude machista, como foi alegado várias vezes por pessoas diferentes, esse é um questionamento importante para entendermos a sociedade em que vivemos, e analisar o tabu que o assunto apresenta. De maneira nenhuma a intenção foi remotamente perto de ser coibir mulheres e adolescentes: a pergunta não é uma acusação, mas simples (ou complexa) curiosidade, e deve ser encarada como tal.
Mas o que se percebeu é que a maioria das pessoas não tem opinião formada sobre o assunto. Quando perguntadas, elas constroem suas opiniões naquele instante, mostrando que dificilmente pensaram o suficiente a respeito. As meninas se mostram acuadas, e parecem modificar sua resposta para que não pensemos maliciosamente delas, o que reflete a forma estigmatizada como o assunto é tratado.
Podemos comprovar que existe uma “ferida aberta” virtualmente, pelas redes sociais, quando alguma menina ou mulher posta uma foto ostentando os seios decotados e percebemos a reação das pessoas. Temos 4 tipos de reações distintas:
A do menino que elogia;
A do menino que desaprova;
A da menina que elogia;
A da menina que desaprova.
O menino que elogia realmente fala o que ele queria dizer? Qual é o limite entre um elogio e uma falta de respeito? O menino que desaprova realmente pensa da maneira que diz pensar? É perfeitamente normal uma menina elogiar a outra? É perfeitamente normal uma menina desaprovar a atitude da outra? É preconceito dizer que a menina é puta por conta disso?
Para fins de conversação vamos convir os termos “mulheres” todas as pessoas de sexo feminino de qualquer faixa etária e “homens” todas as pessoas que se se sintam sexualmente atraídas(os) pelo sexo feminino.
Eu defendo simplesmente que as pessoas deveriam ser honestas e dizer sua intenção. Como já dito, as mulheres se mostram acanhadas e/ou desconfortáveis com o assunto, e isso influencia em sua reação aos comentários nas redes sociais e afins. Algumas até tacham a questão de machista porque, segundo elas, “ter de haver um motivo para isso já é machismo, afinal ninguém pergunta qual a razão de um homem andar de jeito X”. Diz-se também que há uma supervalorização: os seios não deveriam ter uma ‘importância demasiada’ como têm, porque afinal “é só mais uma parte do corpo” e isso “é normal”, e usar um decote é simplesmente “questão de conforto”, ou ainda, de forma um pouco mais eloquente e de cunho pessoal, mais difícil de ser discutida, diz-se que isso é “questão de autoestima”.
Mas analisando minuciosamente a situação, vemos que não é tão simples. Tentar justificar-se por meio dessa abordagem (caramba, ele disse que a menina precisa “justificar” o ato de usar decotes, caramba, que menino machista, pelo amor do Ser Supremo) não funciona nem nunca funcionou, afinal, se esta fosse eficiente, comentários caluniosos, ofensivos e assédios não existiriam com tamanha força. Todos têm o direito de se expressar como bem entendem, e se defender da maneira que achar melhor, mas a maneira como você se defende realmente colabora para que você seja totalmente compreendida nas suas intenções? Mesmo que a pessoa diga que entendeu, você tem certeza se conseguiu ir bem fundo em sua opinião? Creio que por este método, com estas justificativas, raramente alguém te achará sincera, a pessoa as verá como clichês, não mudará de opinião, e assim dificilmente este assunto deixará de ser um tabu, e a igualdade de gêneros continuará sendo uma utopia.
As mulheres tem direitos iguais, porém atributos diferentes. O peitoral feminino, digamos assim, não é visto pelos olhos dos homens da mesma forma que o masculino é visto pelas mulheres, por mais que se reivindique isso. Independente do que quer que seja, os seios femininos despertam algum grau de sex appeal nos homens, ao passo que somente o peitoral de um homem ‘malhado’ conta como um atrativo físico digno de nota pela maioria das mulheres que conheço.
Imagine que, de uma hora para outra, assim como alguns desejam, os seios deixassem de ser algo sensualmente atraente. Que tragédia seria. As mulheres deixariam de ter um importante modo de autoestima, e os homens teriam menos razões para se encantar pelo sexo oposto.
É também algo importante a se dizer que “valorização” não se dá somente pelo tamanho, corte ou estilo de um pedaço de tecido, como ele engrandece ou modifica visualmente uma parte do corpo, mas sim pela importância que tal parte do corpo tem. Se você diz que usa um decote pura, simples e exclusivamente por conta do calor ou do conforto, você está desvalorizando uma importante arma de sedução que possui.
Não creio que algo se torne banal por ser mostrado em demasia, entretanto quando é tratado de uma forma inexpressiva, neste caso, pela própria mulher, é banalizado por ela mesma. E o fato de ser banalizado por ela mesma não significa que isso será considerado da mesma forma para outras pessoas ou para a sociedade. A consciência do efeito que qualquer atitude causa em outras pessoas é algo essencial a se ter. Não para se adequar conforme as normas ou ao pensamento das outras pessoas, mas para poder expressar com clareza as próprias opiniões, para que não haja equívocos, más interpretações, desrespeito ou até mesmo maldade.
Porque tratando o assunto de forma clara, franca e sincera, trata-se o assunto com maturidade. Tratando-se o assunto com maturidade, impõe-se o respeito. Impondo-se o respeito, se constrói limites, e é aí que o tabu se desmonta, o estigma cai, e não há mais medo de assédio, de calúnias, de injustiças.
O que não se pode fazer é tratar um assunto complexo como esse de forma vaga ou inconsistente, porque deixará margens para se pensar palavras que não foram ditas, opiniões distorcidas, posições não declaradas. Nem se pode, tampouco, tratar um assunto polêmico como este como desimportante, clichê, desgastado ou ‘machista’ demais para ser levado em conta, porque é aí que mora o tabu, e no tabu que se deleita a incoerência.
Afinal, se você diz que usar um decote não é nada demais, que não é algo digno de tanta atenção e que não entende o porquê de tanto alarde em torno do assunto, e quando quer ficar mais bonita para ir a uma festa ou tirar um selfie, faz questão de usar uma roupa decotada, sua coerência deixou de existir.
A coerência existe quando a maturidade se manifesta. As mulheres reivindicam direitos iguais, mas agem de forma incoerente quando têm medo da opinião daqueles que querem combater. Afinal, qual seria o grande medonho e sinistro problema em se admitir que usa-se um decote com a intenção de se ficar mais atraente? Onde está a aplicação prática da famosa frase “ser sexy sem ser vulgar”? Será que você age com a forte vontade de ser sensual, mas aterrorizada com a possibilidade de estar sendo vulgar em vez disso?
Uai, quem é que manda no seu corpo? Sou eu? São os machistas? Os pedófilos? Os estupradores? É a sociedade patriarcal e arcaica na qual todas as mulheres são vitimadas constantemente sem perspectiva de fim? Não, você manda. Você decide o quanto de pele os outros são permitidos a ver. Isso é um superpoder. Se você não vê nada demais ou errado em mostrar um pouco de pele, no entanto, sente-se muito mais bonita quando o faz, por que simplesmente não cobrar a mesma perspectiva da famigerada sociedade arcaica patriarcal? Só você pode fazer isso. A sociedade arcaica patriarcal não vai aprender isso sozinha, a sociedade patriarcal não dá bananas para isso.
O que a sociedade arcaica patriarcal quer é que as mulheres continuem usando desculpas pouco convincentes, para poder dizer depois rindo e bebendo nos botecos ou nos tribunais que a culpa do estupro foi dela, que ela estava “querendo”, “usando seu charme”.
O Respeito não virá acompanhado de fadas aladas de uma clareira nas nuvens em um céu nublado de uma manhã de segunda-feira. O Respeito virá de você. Só de você. E tenho dito.