quarta-feira, 16 de julho de 2014

Jornada ao Centro do Ego

Zen, zazen, zafu, shashu, gasshô, kinhin. Bodisatva, mahasatva, maha, prajna, paramita. Concentração. Sensação, conceituação, diferenciação, vazio o são.

Termos que vem se acrescentando ao meu vocabulário nos últimos meses - desde março frequento uma sanga (comunidade) zen-budista. Para dar nomes aos bois e não trocarmos as bolas, Zen-Budismo é uma tradição budista, uma das vertentes do Budismo. Poderia perfeitamente ser chamado de Budismo Zen. Afinal, ninguém chama o Budismo Tibetano de Tibetano-Budismo."Zen" antes, e com hífen, está ali somente pra complicar nossas vidas. Quero um linguista pra me explicar essa história. Enfim...

Lá se ia eu, pelo que eu me lembre, no ensolarado dia de 23 de Março de 2014, andando em direção ao número 2645 da Vasconcelos Costa em Uberlândia. Em casa, o Google Maps estimara que a viagem de 6 quilômetros e meio duraria algo entre "tempo pra cacete" e "uma era mesozóica".

Vinha dizendo para meu pai que pretendia experimentar o budismo, quanto mais dizia, mais ele pretendia me enfiar na cabeça de que só Cristo salva. Certas diferenças ideológicas, vamos combinar... Depois de uma ou duas conversas ele desistiu, resignou-se a dizer que eu era lelé. O interessante é que ele me deu a contribuição para a sanga naquele dia. Está claro que meu pai não conhece, não aprova nem patrocina, mas ao menos consegue conviver com a minha frequência nos encontros de meditação sem maiores reações do que comentar baixinho suas opiniões durante a janta. Isso é um progresso.

Minha madrasta, bem, debochou e riu de mim, dizendo que eu queria chamar atenção por causa de assuntos mal resolvidos entre eu e meus pais. Também tentou me converter às pressas ao Cristianismo, de uma forma menos eloquente que meu pai, e sem sucesso. Não sei que tipo de assunto mal resolvido com meus pais me levaria a mudar minhas convicções sobre Deus e o mundo, mas tentei relevar esses comentários (acusações) e tentar ter uma verdadeira conversa sobre o assunto. Tanto minha madrasta quanto meu pai nunca haviam conversado comigo sobre o que eu penso da vida, exceptuando-se uma vez que discuti com meu pai sobre O Problema do Mal bíblico, e nunca saímos da estaca zero nesse assunto. Tudo bem, afinal, isso não muda muita coisa, nem faz muita diferença. 

Naquele dia eu imprimi o mapa, e saí andando com mais de uma hora (talvez duas) de antecedência, pra garantir. Cheguei suado, com sede, garrafinha d'água vazia. A responsável pela comunidade (e dona da casa) me recebeu fazendo uma reverência que eu não entendi, nem perguntei, nem expressei reação. Depois que outros chegaram eu notei a gafe. Era o gasshô, cumprimento ao estilo japonês. 
Durante a hora que se seguiu, meditamos por dolorosos e inquietantes vinte minutos, uma das únicas eternidades que já cheguei a experimentar; recitamos um sutra e bebemos suco verde, uma cortesia saudável de uma frequentadora. Como todas as coisas saudáveis, era horrível mas bebível. O tempo me ajudaria a me acostumar com o gosto. 

Meu interesse pelo Budismo surgiu do período "montanha-russa religiosa" que os senhores bem lembram. Foi o tempo em que me abri para novas experiências religiosas a fim de satisfazer minhas inquietações. 

Vi no Budismo uma religião assustadoramente atraente: não existe menção de um Deus a servir; somos nossos próprios mestres; não deveríamos julgar algo como verdade nem mesmo se alguém que admiramos muito (como o Buda) nos disser - temos que testar para comprovar, ver para crer; o objetivo não é conseguir algo místico ou extrassensorial, mas simplesmente a harmonia, felicidade e aceitação para com a vida; as práticas são simples; o que aprendemos delas é complexo; a filosofia é extensa, implora para ser devorada; existiu historicamente um camarada chamado Sidarta Gautama que ensinou essas coisas. 

Muitas pessoas, creio que boa parte delas, se sentem atraídas pelo Budismo pelo mesmos motivos. Mas desse modo, vendo minhas próprias intenções e pontos de vista externalizados, consigo estar ciente de como isso pode ser danoso.

Veja, existe uma discussão sempre recorrente: "O Budismo é uma religião? Não tem Deus no negócio". Mas pra ser religião, carece ter um Deus no negócio? Como bem lembra Monja Coen, religião vem do latim relegere da mesma forma que vem do latim religare. "Religare" quer dizer, obviamente, "religar" (ligar algo com algo, homem com o divino), e "relegere" quer dizer "reler", "releitura" (ler algo novamente, ver o mundo de outra forma). As pessoas geralmente consideram o religare, e ignoram o relegere, tentando se justificar dizendo que seguem uma filosofia chamada budismo, e não uma religião chamada budismo, porque uma religião tem seres místicos, crenças e superstições, e queremos nos distanciar dessa imagem o máximo possível. Sentimos a necessidade de diferenciar o zen-budismo dos outros tipos.

O que me causa um certo desconcerto. Um dos motivos cruciais que me levaram a me distanciar das outras religiões é a diversidade de pontos de vista. Segundo eu mesmo, a Verdade Incontestável da Vida, do Universo e Tudo Mais deve ser imutável, e não sujeitável ao bel-prazer da mente humana, usando como justificativa desculpas esfarrapadas intituladas "Teologia". O Budismo é uma religião bastante diversa, portanto, não estou eu sendo hipócrita? Talvez!

Mas o fato do budismo ser um barato muito doido entre uma filosofia e uma religião se explica: Buda criou uma filosofia, e seus seguidores, os aspectos religiosos. Uma coisa está dentro da outra, adquirindo um caráter indissociável. 
Uma religião que proclama ser a Verdade tem de ser no mínimo coerente. Felizmente, o budismo não tem tal pretensão, em vez disso, o que diz é que temos que descobrir o que quer que seja por esforço próprio, como Buda fez, e mesmo duvidar de sua própria palavra.
Uma filosofia, por outro lado, pode e deve ser revista, reavaliada, reinterpretada e novamente esclarecida, concisamente. Isso pode explicar a pluralidade de pontos de vista budistas. Por exemplo, existem várias correntes budistas, como a tibetana, que prega a reencarnação (ou renascimento). 

O zen-budismo, ao menos pelo o que eu sei/leio/observo, não. Pelo menos não da mesma forma. Para o zen-budismo, você renasce várias vezes na sua vida, a partir do momento que passa por suas experiências, muda seus pontos de vida e sua mente. O carma nada mais significa do que Lei de Causa e Efeito, em outras palavras, a explicação de como você colhe o que planta. A vida e morte são dois aspectos não conflitantes da existência, num estalar de dedos, vida e morte acontecem milhões de vezes, por isso não devemos desejar uma ou odiar a outra, tampouco supor que acontece algo, ou que algo acontece depois que a morte chega, ou depois que se vai. O que se diz é que depois que a Roda da Vida para pra você, continua girando pro resto, e que você é o resto, o resto não é separado de você.

Posso estar sendo incoerente por pensar assim, posso estar criando um conforto pra mim mesmo pensando que por ser uma filosofia também, pode ser contraditória no que diz. E por conta disso, me livro das ditas premissas danosas as quais me referi ali em cima. Olho agora com outros olhos as religiões teístas. Novamente.

Estou olhando para os benefícios que o budismo me traz. Perceber a realidade como ela é, é o principal, senão o único. E é um aprendizado constante, na recitação de sutras, na meditação, e também  na convivência. Um exemplo:

Quando a primeira reunião terminou, todos estavam indo embora, e na minha cabeça, desde que a reunião começou, eu queria o reconhecimento de que andei os 6 quilômetros e meio. Quando Myoden (a responsável) me perguntou de que eu tinha vindo, eu disse "com as pernas e com força de vontade". Eu queria que as pessoas dissessem que era uma atitude, não sei, heroica, e ao mesmo tempo, não queria dar muito na vista esse desejo. E elas disseram. Menos a Myoden. A Myoden não. A mesma frequentadora do suco verde me ofereceu dinheiro pra eu voltar de ônibus. Mesma história, querendo pegar, mas não querendo dar muito na vista. De certa forma, esperei, sem dizer nada, que a Myoden fizesse algo, me oferecer dinheiro, me dar uma carona, alguma coisa. Não.

Talvez ela não quisesse ou não pudesse dar dinheiro, ou achasse muito pedante me oferecer carona até meu bairro àquela hora, sendo essa minha primeira visita, ou ainda me mostrar o aspecto militaresco tão próprio do zen-budismo. Ou ainda, me dar aquelas lições ao estilo "passa cera, tira cera, gafanhoto". Estávamos na rua, ela me deu um abraço, se despediu e entrou.  Esse silêncio rondou minha cabeça por muitos dias. Não que eu estivesse preocupado, ou estivesse cobrando-a mentalmente, mas foi curioso. Afinal, ela foi extremamente gentil o tempo inteiro. Não me ocorreu a resposta. 

Um dia eu li uma tirinha zen, estrelando se não me engano Bodidarma, um carinha que viajou da Índia à China a pedido do imperador chinês, pra divulgar o budismo lá. O imperador perguntou a ele qual seria o mérito de tê-lo trazido ali e arranjado imagens budistas, altares, e feito tudinho nos trinks pra divulgar o glorioso "Darma de Buda" em suas terras. Bodidarma simplesmente respondeu "mérito nenhum". Aí eu esqueci dessa tirinha, passaram-se vários dias.
Uma bela noite eu estava meditando em meu quarto e de repente me levantei de súbito, juntando as peças. A atitude da Myoden serviu como um koan silencioso, sendo ou não sendo. 

Não há mérito.

Não tem de haver mérito.

O objetivo de se transpor as barreiras que me são impostas é simplesmente transpô-las, não ser vangloriado por fazê-lo. Afinal, as barreiras não foram postas ali especialmente para mim, nem sequer foram postas, as barreiras estão ali porque existem, e se eu realmente quiser não ser barrado, é impossível eu não ter a obrigação de transpô-las, mas sem desejo a mérito, sem reconhecimento, porque todos tem suas barreiras, tanto menores quanto maiores que as minhas. Se o imperador chinês quis divulgar o Darma de Buda em suas terras, haveria ele de querer ser reconhecido por tal atitude? Ele quis divulgar o Darma, ou divulgar a si mesmo? Se ninguém da minha família aprova, se não querem colaborar, e se isso dificulta as coisas pra mim... e daí? Se eu realmente quero não devo olhar para as barreiras como incapacitantes, nem para suas superações como dignas de reconhecimento, porque quem quer sou eu, portanto quem criou as barreiras, mesmo que indiretamente, fui eu. 

Isso se estende para tudo. Percebi que eu sou assim, mesmo inconscientemente ou não querendo dar muito na vista, quero mérito em tudo. Quando me elogiam, fico no dilema entre concordar, discordar, ignorar ou mudar de assunto. Mas fico acuado dessa maneira porque não entendo o que nesse caso significa concordar, discordar, ignorar ou mudar de assunto. Eu sei que não sou melhor do que ninguém. Mas não entendia o porquê. A partir de agora tentarei ser mais humilde, realmente humilde, já que não dava muito na vista que eu de certa forma não era.

Isso também se aplica para ser ateu e pensar que religiosos são inferiores, ser ateu & budista e pensar que as outras pessoas estão perdidas/erradas/desperdiçando a festa. Mesmo que seja bem lá no fundo. 

O Budismo está se saindo melhor que a encomenda, uma experiência única e estimulante, talvez impermanentemente, mas que já conseguiu mérito comigo.

Até mais, cabritos andarilhos dos trilhos de trem ~

Gasshô _/\_