quarta-feira, 19 de novembro de 2014

A Discórdia dos Peitos de Fora


Na semana passada irrompeu pelas mesas do refeitório da minha escola um assunto polêmico: mamilos. Mamilos são polêmicos. Aliás, acho que o nome correto é mamas, no caso. Apesar de eu gostar de dizer peitos mesmo. Enfim, como eu sou uma pessoa que gosta de polêmica (e de peitos), resolvi entrar de cabeça na discussão, dando minhas opiniões, posições, teorias e pitacos acerca da seguinte pergunta: “Qual a intenção de uma menina que usa decote nos seios?”.
Não foi algo simples de se fazer, devo admitir. Aliás, nem foi algo rápido. E em decorrência de não ser uma conversa nem simples nem rápida, as pessoas saíram de sua zona de conforto, e, como sempre quando isso acontece, soltaram sua rage expressando sua indignação ao fato de pensar ser obrigatório.
Afinal, a gente não consegue ficar um segundo sem pensar. Pensamos até dormindo. Mesmo quando pensamos em não pensar, estamos pensando. E tem muita gente incomodada com isso neste planeta. Existem pessoas que querem pensar o mínimo necessário, e por isso se incomodam com questões difíceis, debates prolongados e argumentação incisiva, como é o caso deste tema tão ululante que tratarei hoje. Portanto, se você está de mal com o seu cérebro, ou deseja poupar seus neurônios para a posteridade, devo avisar que este será um texto longo, que lhe fará refletir acerca de seus conceitos, ou ajudar a cria-los.
O debate se estendeu pela semana toda, várias pessoas participaram, inclusive tirando o sono meu e de alguns colegas, gerou briguinhas e comentários ácidos. Falamos com pessoas mais velhas e intentamos fazer uma pesquisa de opinião, para levantar estatisticamente uma visão geral. Ninguém saiu ferido.
A intenção geral da pesquisa e do debate é se perguntar não só o porquê de uma menina usar roupas decotadas, mas também saber a reação das pessoas, e o porquê de reagirem assim. Longe de ser uma atitude machista, como foi alegado várias vezes por pessoas diferentes, esse é um questionamento importante para entendermos a sociedade em que vivemos, e analisar o tabu que o assunto apresenta. De maneira nenhuma a intenção foi remotamente perto de ser coibir mulheres e adolescentes: a pergunta não é uma acusação, mas simples (ou complexa) curiosidade, e deve ser encarada como tal.
Mas o que se percebeu é que a maioria das pessoas não tem opinião formada sobre o assunto. Quando perguntadas, elas constroem suas opiniões naquele instante, mostrando que dificilmente pensaram o suficiente a respeito. As meninas se mostram acuadas, e parecem modificar sua resposta para que não pensemos maliciosamente delas, o que reflete a forma estigmatizada como o assunto é tratado.
Podemos comprovar que existe uma “ferida aberta” virtualmente, pelas redes sociais, quando alguma menina ou mulher posta uma foto ostentando os seios decotados e percebemos a reação das pessoas. Temos 4 tipos de reações distintas:
A do menino que elogia;
A do menino que desaprova;
A da menina que elogia;
A da menina que desaprova.
O menino que elogia realmente fala o que ele queria dizer? Qual é o limite entre um elogio e uma falta de respeito? O menino que desaprova realmente pensa da maneira que diz pensar? É perfeitamente normal uma menina elogiar a outra? É perfeitamente normal uma menina desaprovar a atitude da outra? É preconceito dizer que a menina é puta por conta disso?
Para fins de conversação vamos convir os termos “mulheres” todas as pessoas de sexo feminino de qualquer faixa etária e “homens” todas as pessoas que se se sintam sexualmente atraídas(os) pelo sexo feminino.
Eu defendo simplesmente que as pessoas deveriam ser honestas e dizer sua intenção. Como já dito, as mulheres se mostram acanhadas e/ou desconfortáveis com o assunto, e isso influencia em sua reação aos comentários nas redes sociais e afins. Algumas até tacham a questão de machista porque, segundo elas, “ter de haver um motivo para isso já é machismo, afinal ninguém pergunta qual a razão de um homem andar de jeito X”. Diz-se também que há uma supervalorização: os seios não deveriam ter uma ‘importância demasiada’ como têm, porque afinal “é só mais uma parte do corpo” e isso “é normal”, e usar um decote é simplesmente “questão de conforto”, ou ainda, de forma um pouco mais eloquente e de cunho pessoal, mais difícil de ser discutida, diz-se que isso é “questão de autoestima”.
Mas analisando minuciosamente a situação, vemos que não é tão simples. Tentar justificar-se por meio dessa abordagem (caramba, ele disse que a menina precisa “justificar” o ato de usar decotes, caramba, que menino machista, pelo amor do Ser Supremo) não funciona nem nunca funcionou, afinal, se esta fosse eficiente, comentários caluniosos, ofensivos e assédios não existiriam com tamanha força. Todos têm o direito de se expressar como bem entendem, e se defender da maneira que achar melhor, mas a maneira como você se defende realmente colabora para que você seja totalmente compreendida nas suas intenções? Mesmo que a pessoa diga que entendeu, você tem certeza se conseguiu ir bem fundo em sua opinião? Creio que por este método, com estas justificativas, raramente alguém te achará sincera, a pessoa as verá como clichês, não mudará de opinião, e assim dificilmente este assunto deixará de ser um tabu, e a igualdade de gêneros continuará sendo uma utopia.
As mulheres tem direitos iguais, porém atributos diferentes. O peitoral feminino, digamos assim, não é visto pelos olhos dos homens da mesma forma que o masculino é visto pelas mulheres, por mais que se reivindique isso. Independente do que quer que seja, os seios femininos despertam algum grau de sex appeal nos homens, ao passo que somente o peitoral de um homem ‘malhado’ conta como um atrativo físico digno de nota pela maioria das mulheres que conheço.
Imagine que, de uma hora para outra, assim como alguns desejam, os seios deixassem de ser algo sensualmente atraente. Que tragédia seria. As mulheres deixariam de ter um importante modo de autoestima, e os homens teriam menos razões para se encantar pelo sexo oposto.
É também algo importante a se dizer que “valorização” não se dá somente pelo tamanho, corte ou estilo de um pedaço de tecido, como ele engrandece ou modifica visualmente uma parte do corpo, mas sim pela importância que tal parte do corpo tem. Se você diz que usa um decote pura, simples e exclusivamente por conta do calor ou do conforto, você está desvalorizando uma importante arma de sedução que possui.
Não creio que algo se torne banal por ser mostrado em demasia, entretanto quando é tratado de uma forma inexpressiva, neste caso, pela própria mulher, é banalizado por ela mesma. E o fato de ser banalizado por ela mesma não significa que isso será considerado da mesma forma para outras pessoas ou para a sociedade. A consciência do efeito que qualquer atitude causa em outras pessoas é algo essencial a se ter. Não para se adequar conforme as normas ou ao pensamento das outras pessoas, mas para poder expressar com clareza as próprias opiniões, para que não haja equívocos, más interpretações, desrespeito ou até mesmo maldade.
Porque tratando o assunto de forma clara, franca e sincera, trata-se o assunto com maturidade. Tratando-se o assunto com maturidade, impõe-se o respeito. Impondo-se o respeito, se constrói limites, e é aí que o tabu se desmonta, o estigma cai, e não há mais medo de assédio, de calúnias, de injustiças.
O que não se pode fazer é tratar um assunto complexo como esse de forma vaga ou inconsistente, porque deixará margens para se pensar palavras que não foram ditas, opiniões distorcidas, posições não declaradas. Nem se pode, tampouco, tratar um assunto polêmico como este como desimportante, clichê, desgastado ou ‘machista’ demais para ser levado em conta, porque é aí que mora o tabu, e no tabu que se deleita a incoerência.
Afinal, se você diz que usar um decote não é nada demais, que não é algo digno de tanta atenção e que não entende o porquê de tanto alarde em torno do assunto, e quando quer ficar mais bonita para ir a uma festa ou tirar um selfie, faz questão de usar uma roupa decotada, sua coerência deixou de existir.
A coerência existe quando a maturidade se manifesta. As mulheres reivindicam direitos iguais, mas agem de forma incoerente quando têm medo da opinião daqueles que querem combater. Afinal, qual seria o grande medonho e sinistro problema em se admitir que usa-se um decote com a intenção de se ficar mais atraente? Onde está a aplicação prática da famosa frase “ser sexy sem ser vulgar”? Será que você age com a forte vontade de ser sensual, mas aterrorizada com a possibilidade de estar sendo vulgar em vez disso?
Uai, quem é que manda no seu corpo? Sou eu? São os machistas? Os pedófilos? Os estupradores? É a sociedade patriarcal e arcaica na qual todas as mulheres são vitimadas constantemente sem perspectiva de fim? Não, você manda. Você decide o quanto de pele os outros são permitidos a ver. Isso é um superpoder. Se você não vê nada demais ou errado em mostrar um pouco de pele, no entanto, sente-se muito mais bonita quando o faz, por que simplesmente não cobrar a mesma perspectiva da famigerada sociedade arcaica patriarcal? Só você pode fazer isso. A sociedade arcaica patriarcal não vai aprender isso sozinha, a sociedade patriarcal não dá bananas para isso.
O que a sociedade arcaica patriarcal quer é que as mulheres continuem usando desculpas pouco convincentes, para poder dizer depois rindo e bebendo nos botecos ou nos tribunais que a culpa do estupro foi dela, que ela estava “querendo”, “usando seu charme”.
O Respeito não virá acompanhado de fadas aladas de uma clareira nas nuvens em um céu nublado de uma manhã de segunda-feira. O Respeito virá de você. Só de você. E tenho dito.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Retrospecto da Maravilhosa Montanha-Russa Religiosa


Quem vê esta lista pode pensar duas coisas sobre ela: 
1 - A maioria dá a entender que é algo a respeito de religião
2 - As datas são relativamente distantes umas das outras
3 - Os títulos são fodas

Chutando a modéstia pra puta que pariu, realmente, tenho que admitir, os títulos são fodas. Eu penso muito antes de colocar um, pra ser bem interessante, e quebro a cabeça (às vezes durante horas) pra fazer o conteúdo dos posts ser ácido, irônico, impactante. Afinal, sem um solavanco, sem um tiquinho de audácia, sem um certo tom de desafio, ninguém vai querer ler, e muito menos pensar a respeito. Depois de um tempo eu sempre acho que tem algo num texto que devia melhorar, que eu devia ter escrito de outra forma, e às vezes, penso que sou rude demais. Mas aí várias pessoas já leram, e já não adianta. E que piada, eu nunca sou rude demais, eu devia ser até mais rude. xD

Esses posts, se não faltou algum, são todos os posts sobre religião que eu já escrevi aqui no blog. É um assunto que tem povoado furtivamente minha cabeça há pelo menos dois anos. Desde a publicação do primeiro, já se foram 29 meses, no entanto, eu comecei a pensar sobre religião muito antes.


Eu tinha uma relação de 'amor e ódio' com a igreja que frequentava. 'Odiar' não, porque eu não odiava. Só achava chato. Diferente de outras denominações, a CCB não tem uma integração maior com a comunidade, e não fala em uma linguagem aprazível aos jovens. Os cultos de jovens (o correto seria PARA jovens, porque da maneira que está subentende-se que os jovens são cultuados...) eram quase vazios, com uns poucos frequentadores inconstantes, e dentre os constantes, havia sono durante o culto. Muito sono. Não que seja culpa dos pregadores, nem nada, eles faziam o que podiam, mas o estilo de pregação que impera na CCB é "Deus está na sua vida, Deus vai fazer uma obra, Deus vai te livrar disso, você já está selado com a promessa", e falar em línguas. Mas um jovem não quer saber disso. Um culto de jovens é basicamente, um culto de adultos, com a diferença dos recitativos, que são papeizinhos em que se escreve um versículo da bíblia, faz-se uma fila, e recita-se, cada qual um versículo de um capítulo qualquer do livro sagrado.

Mas eu passei por bons momentos também. Quem me vê hoje não imagina que eu cantava todos os hinos em voz alta sem vergonha dos outros, que eu me prostrava e orava (de verdade!), que eu fazia votos e os pagava, que testemunhava, que já orei no púlpito para toda a igreja, que chorei diversas vezes, saindo de lá com aquela euforia e certeza absoluta da existência do Criador e da magnanimidade de Jesus Cristo. Meu hino predileto era Rosa de Saron, e invariavelmente chorava igual uma garotinha TODAS as vezes que ele era tocado. Isso antes da letra mudar, é claro.

Às vezes me bate uma saudade desses sentimentos. Aí eu penso: Como eu pude deixar tudo isso? Como é possível eu não sentir mais nada quando a palavra de Deus é impelida para os meus ouvidos? Por que eu não choro mais? Por que eu não sinto orgulho de vestir terno e gravata e ser chamado de 'irmãozinho' a caminho da igreja?

A resposta está registrada nos posts acima. Hoje eu não acredito mais, não sinto mais, minha fé foi-se por completo. Mas não tenho orgulho disso. Eu juro que eu tentei, com todas as minhas forças, evitar ser chamado de "ateu". Eu não gosto do termo. Ele tem uma conotação sombria e é sinônimo de intolerância e desrepeito por culpa dos imbecis que se fazem valer dele para inflar seus egos. É difícil pra mim lidar com tudo isso.

Em "O Fim da Minha Abstinência Religiosa" eu comento que "Do meio mais turbulento e complexo do Cristianismo, me lancei de cabeça diretamente para as profundezas Ateísticas, terreno onde eu sempre pensei que não havia espaço para outras considerações, a não ser para a razão. Dali eu nadei desesperadamente para algo que não fosse tão extremista e encontrei 'as filosofias de cima do muro' chamadas Deísmo e Agnosticismo, que também não me satisfizeram."

Já em "Londres e a Loteria da Babilônia", eu relatei que quando Avril me perguntou de qual religião eu era, eu respondi "deísta". Até então eu não tinha me firmado em nenhum dos três (Ateísmo, Deísmo ou Agnosticismo), e respondia, sempre que alguém me perguntava, com "deísta" ou "agnóstico", e até mesmo com um "não sei", mas "ateu", nunca.

Em suma, para mim, o ateísmo não fazia sentido. Como o universo veio a existir sem um estopim, sem algo que o induzisse a vir a ser? Tinha de haver um Deus, não necessariamente presente em alguma religião, mas uma força, energia, algo que pudesse ser chamado de Criador. Mas minha opinião mudou da água pro vinho quando conheci um argumento do famoso astrofísico americano Neil deGrasse Tyson.

Ele diz que "Deus é um bolso cada vez mais vazio de ignorância científica", ou seja, se analisássemos a história humana desde os primórdios da razão, Deus vinha diminuindo cada vez mais sua participação na Natureza e no pensamento humano. Antes Deus fazia o sol nascer, a noite cair, os eclipses, as estações do ano, as flores germinarem e as folhas das árvores caírem. Hoje nós temos explicações embasadas e irrefutáveis a respeito de todos esses fenômenos e muitos outros, a ciência progride cada vez mais. Dizer que só porque não entendemos como algo acontece ou aconteceu, sugerir Deus como resposta não resolve o problema, só o transfere. É como mandar os cientistas largarem os tubos de ensaio, microscópios e telescópios, porque a questão estaria simplesmente resolvida (o que, diga-se de passagem, aconteceu muito frequentemente no decorrer da história, e se tivessem vingado, muito do que acontece a nossa volta ainda continuaria um mistério). Portanto, dizer que "Deus fez e pronto", não é tão simples, afinal, de onde veio Deus? Por que ele fez? Como ele fez? São as mesmas perguntas que se fazem atualmente quanto à origem do universo. "O que veio do nada, Deus ou o Universo? Bem, o universo está aí pra todo mundo ver, me apresente Deus e continuamos o debate".



Deus (e divindades) hoje em dia, servem mais como um preenchimento do vazio humano do que para resolver qualquer questão filosófica ou científica. O Deus de hoje serve tão-somente para prover a moralidade, ética, vida em comunidade e espiritualidade. Mas todas essas coisas são possíveis e indifrentes à ideia de Deus. Deus é inútil para a Natureza, para o início de tudo, e para o homem também.

Uma prova disso é a existência de religiões não-teístas, como o Budismo, Jainismo e Confucionismo. Em todas elas Deus não é o foco, a crença em Deus ou deuses é indiferente. 

Em "Jornada ao Centro do Ego", comento o contato que tive com o budismo, sobre o qual admito estar indeciso até o presente momento. A verdade é que eu tenho medo do budismo. É bom demais pra ser verdade... Tenho medo de não estar entendendo direito, enganando a mim mesmo, achando ele uma maravilha, uma religião perfeita, uma utopia. Mas continuo meditando por conta das evidências científicas acerca da prática, e quero ter um professor, pra suprir minha ânsia de entender direito do que se trata.

Quero deixar claro que minhas opiniões citadas neste post podem mudar, estou aberto ao debate a qualquer um que queira me fazer sentir como eu me sentia antes. Eu adoraria acreditar em Deus novamente. A beleza das coisas, opiniões e pensamentos é a liberdade que temos de poder mudá-las. Sem diálogo não há crescimento. Por isso mesmo eu discordo veementemente da afirmação de que "religião não se discute". TUDO se discute. Não há regras invioláveis, não há conceitos imortais, não há ideias universais. Tudo está em constante fluxo.

Deixarei este post como uma referência a qualquer que me questionar a respeito de minha visão religiosa, ou falta dela.

Até mais, cabritos andarilhos dos trilhos de trem ~~ 

A Árvore da Vida

Ontem eu sofri um acidente de bicicleta.
Às seis horas da tarde, eu estava descendo uma ladeira, à caminho de casa, quando perdi o freio. No fim dessa ladeira, tem um barranco cheio de árvores, arbustos e pedras, e no fundo tem um riacho, também cheio de pedras. À minha esquerda também tinha umas plantas e árvores que atrapalharam a minha visão, e não vi o carro preto que vinha em minha direção, pela esquerda. Na velocidade em que eu estava, tinha certeza que não conseguiria virar, nem mesmo se o carro não estivesse vindo.

O carro só não me atropelou porque freou à tempo, mas não consegui virar o suficiente, e por isso fui com tudo em direção ao barranco... sorte que eu me estabaquei em uma árvore antes que pudesse ir com bicicleta e tudo barranco à baixo...

A dor foi forte, muito forte, forte mesmo, forte pra caralho, bati  o pescoço, a lateral direita da cabeça, o ombro e o joelho direito na árvore, tudo de uma vez. Me disseram depois que a árvore, que era alta, balançou durante vários segundos depois da batida.

Caí para a direita, arfando, do lado da bicicleta. Vi um homem descendo a rua e gritando "Ai meu Deus! Ai meu Deus!", depois percebi outras pessoas descendo depressa pra me socorrer, aí abaixei a cabeça, me deitando, porque a dor era muito forte.

O homem do carro também desceu pra me socorrer, e em pouco tempo eu estava todo rodeado de gente, me perguntando se eu estava bem, onde eu morava, nome da minha mãe, telefone da minha mãe, se eu estava sentindo dor, se eu era crente, se eu tinha perdido o freio, etc. Chamaram uma ambulância, que chegou até rápido. 

Os paramédicos pediram pra eu apertar a mão deles, tocaram no meu ombro, dobraram minha perna (PUTA QUE PARIU!), me imobilizaram, botaram na maca, e daquele momento em diante meu mundo visível se resumiu ao céu, à rostos e aos tetos da ambulância e do hospital.  Minha mãe chegou, (desesperada, claro) nessa hora.

O incômodo no joelho era realmente muito forte, perguntaram (mais de uma vez) se poderiam cortar minha calça pra ver como estava. E é óbvio, claro, evidente, é lógico que eu não deixei cortar a calça. Acha, cortar a calça? Meu joelho que se foda. Oras. (Tô brincando xD Se a dor não fosse suportável, poderiam até tacar fogo na calça, de bouas).

No hospital, outra sabatina de perguntas: nome, endereço, telefone, nome dos pais, RG, sente dor onde, dói quando faço isso, posso cortar a calça, etc. 
Conversei com os médicos, com a minha mãe, ela comentou o susto que levou quando foram avisar ela. Tiraram a minha calça pra ver o joelho, e colocaram um lençol em cima.

Me levaram pra um corredor onde fiquei esperando pelo raio-x, curiosamente, bem embaixo de uma imagem de Jesus crucificado, com coroa de espinhos, todo ensanguentado, olhando direto pra mim, como quem dissesse "Machucou aí, fera? E pregos, cê manja?". 

Fiz o raio-x, e felizmente, não tinha nenhum osso quebrado, o médico disse que não poderia saber se havia algum dano muscular, mas disse que eu estava bem, receitou um remédio, pediu que me colocassem faixas, e me liberou. Mas ainda estou todo dolorido.

Passando por essa experiência, que certamente foi o maior perigo que eu  já passei, me fez perceber como a linha entre a vida e a morte é tênue. Inclusive foi o que mais se comentou, entre as pessoas que me acudiram, os médicos e a minha família.

Se em toda aquela situação, o motorista tivesse demorado um instante a mais para me perceber ou para frear, eu estaria na melhor das hipóteses numa UTI;
se eu estivesse um tanto mais rápido, poderia ter quebrado um braço ou uma perna, uma costela, a cabeça, ou ainda;
se eu tivesse virado a bicicleta alguns graus a mais para a esquerda ou para a direita, eu teria ido parar numa árvore cheia de espinhos, vizinha à que eu bati; ou teria descarrilhado barranco abaixo, onde tem mais árvores, buracos, pedras e o riacho - poderia ter batido a cabeça, quebrado o pescoço, poderia ter capotado com a bicicleta e também... 
Poderia ter morrido em toda e qualquer uma dessas situações.

Mas eu estou vivo. E inteiro. 

Portanto é óbvio que eu ouvi coisas como "Deus tem um plano na sua vida", "Deus te salvou", "Deus te provou que ele existe" e, como já dito, o "machucou aí fera?" de Jesus.

Eu poderia estar morto. Sim. Mas quem me disse isso também poderia estar morto. Você que está lendo também poderia estar morto. Na verdade, todos nós poderíamos estar mortos agora. A morte acontece a todo momento, em várias formas, de diversas maneiras, com muitas pessoas, em todo o lugar. Eu não morri, mas e quanto as pessoas que sofrem acidentes e morrem todos os dias? 

Minha avó foi quem disse primeiro que Deus fez isso pra me provar que existe. Mas é uma inocência tremenda achar que eu vou amar um Deus que provocaria um acidente com risco de morte, só pra dizer depois que me "salvou". Que tipo de Deus louco por atenção seria esse? Eu prefiro acreditar que ele não existe!

Não é que eu não tenha medo da morte, eu morro de medo da morte. Mas ela acontece com tudo e todos, por que eu deveria me sentir especial o suficiente pra pensar que morrer é inaceitável, ou pior, pra pensar que um Ser Supremo se importaria tanto comigo pra me salvar da morte, e desprezaria tantas outras pessoas pra deixar de salvar as mesmas?

Eu agradeço por estar vivo, estou feliz por estar vivo, e agradeço mais ainda as coincidências, causas e condições que me levaram a enfiar a cara naquela árvore, daquela maneira, com essa dor tremenda, porque, ou era isso, ou algo pior.

Agradeço à árvore,  a constante, prevalecente e não conflitante Árvore da Vida.

  

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

O Problema do Mal

Já faz 28 meses que estou nesta montanha-russa ideológica. Dela pipocaram questionamentos, gritos de compreensão, e frios na barriga de indecisões. Por mais que eu tenha ido e vindo, visto e sentido o gosto de várias religiões e formas de pensar, fica claro que o Cristianismo é o buraco mais fundo. O Brasil, sendo um "estado laico mas não-ateu, um estado judaico-cristão", como diria o asno do Marco Feliciano, é praticamente O LUGAR para se discutir o Cristianismo. Cristianismo, pra quem não sabe, envolve 8 coisas: Deus, Deus-Jesus, Deus-Desconhecido, você-os-outros-e-o-resto, pecado, diabo, céu, inferno. E coisas boas também.


Como pequena introdução, colocarei como palavras-chave a seguir coisas que todo mundo conhece, do início da bíblia: Adão, Eva, maçã, cobra, pecado, capiroto, Deus, você, o mal. Hoje tratarei d'O Problema do Mal, pessoal.

O Problema do Mal, em letras maiúsculas e assustadoras, é um dilema enfrentado, ou que pelo menos deveria ser, pelos cristãos que lutam por serem coerentes não com a ciência, nem com a moralidade, mas com a própria crença. Para quem acredita ou não acredita, todo mundo conhece a história: Deus criou o homem feito de barro, a mulher da costela dele, pôs os pombinhos no Éden, fez a árvore com o fruto proibido, veio Satanás e cortou o barato de todo mundo, Deus expulsou os dois do Éden, e hoje as mulheres sofrem para dar a luz. Ah, e existe o mal, sofrimento, corrupção, lascívia, morte, dor, punição, tortura, fome, devastação, desigualdade, egoísmo, pecado, desastres naturais e opressão, também. Tudo explicadinho. Mas a pergunta principal do Problema do Mal feita aos cristãos é: "Explique-me tu, rapaz, desde o comecinho, como é que Deus ter colocado a árvore e a fruta lá no meio do Éden não foi uma puta falta de sacanagem".


Agora deixem-me dissecar o assunto. Um dos aspectos mais profundos deste problema, está na mentalidade de achar que Deus é um homem. Existem teologias, filosofias e reinterpretações que dizem que Deus bíblico é algo diferente, mais próximo do Tao, do deus de Baruch Spinoza ou energia/força/entidade/barato-muito-doido primordial, mas é claro que você não é obrigado(a) a pensar nele assim, naturalmente a forma mais tradicional de papai-noel de camisolas pode te satisfazer melhor. Por acaso essa visão é baseada em Zeus, o Todo-Poderoso grego. Recapitulando... Acreditar que Deus seja um homem, que é a visão empregada em toda a bíblia, é algo ruim, porque um homem erra.

Mas Deus não erra, correto? Deus é perfeito, oras bolas caxirolas.

Espera aí...

Deus não errou colocando o Fruto Proibido justo dentro do Éden, na cara de Adão e de Eva?  Deus não errou em deixar Adão e Eva à sós com uma cobra falante, e por sinal, fofoqueira? Deus não errou fazendo o homem tão ganancioso, curioso e desobediente? Deus não errou punindo a humanidade inaugurando o Inferno e deixando que Satanás esfole o briôco do pessoal, ao invés de simplesmente castigar a cobra fofoqueira? Deus não errou em fazer o homem de barro, sendo que Darwin disse que ele evoluiu do macaco? 

Essas e outras perguntas exigem o máximo de abstinência de massa cinzenta para serem respondidas, distorção do sentido claro empregado no que está escrito, e principalmente, muito fundamentalismo.

"Deus não errou colocando o Fruto Proibido justo dentro do Éden, na cara de Adão e de Eva?"

Por todas as distâncias de áreas inabitadas e desconhecidas à época, por que Deus teve a ideia brilhante de colocar a Árvore da Ciência do Bem e do Mal bem pertinho das suas crias? Você pode argumentar, como muitos o fazem, de que Deus quis fazer um test-drive de obediência com os dois. Essa seria uma resposta perfeita, pena que o Deus descrito na bíblia é onisciente, ou seja: vê tudo, sabe de tudo, até os nossos pensamentos, sabe de toda a nossa natureza, e olha só que louco, sabe do passado, do presente e do futuro. Que massa, não é? Deus quis testar Adão e Eva já sabendo no que ia dar: os dois iriam cair, o mal iria existir, as coisas nunca seriam perfeitas, Caim, Abel, Hitler, Inferno, Satanás, briôco, aquela história toda. Isso é péssimo para a imagem que nosso criador quer passar.

"Deus não errou em deixar Adão e Eva à sós com uma cobra falante, e por sinal, fofoqueira?"

Além de colocar a Árvore bem acessível aos dois, ainda tinha um melzinho na chupeta: A Cobra Falante. Se a Árvore e o Fruto eram um teste de obediência, a Cobra também estava incluída no pacote? Ela aproveita justo a hora que Deus "sai da presença" de Adão e Eva (onipresença e onisciência #fail), e dá o bote. Você consegue imaginar Deus escondido atrás de um arbusto, escutando a conversa, depois de ter ensaiado as falas com a Cobra, pra ver se Adão e Eva eram realmente dignos de sua confiança?
Mas a Cobra não é Satanás? Satanás não é aquele anjo mau que foi expulso do Paraíso? Deus não pode ter combinado nada com ele, eles se odeiam. Você ficaria surpreso se eu te dissesse que em nenhum momento é citado no texto que a cobra falante é Satanás? Pois é, cabrito!
Essa noção vem de teologias posteriores, e é constantemente repetida, tanto que está enraizada na cabeça de todos. Falaremos sobre o ânus fustigado de Satanás em instantes.

"Deus não errou fazendo o homem tão ganancioso, curioso e desobediente?"

Deus fez o homem. Ponto. Na bíblia não é dito que ele desenhou o projeto, mas se o fez, com certeza foi à caneta, antes da invenção do errorex. Logo após o projeto estar pronto, Deus quis corrigí-lo com rabiscos feios, que não resolviam bem o problema, como é o caso da dor do parto, do trabalho, da morte e do Dilúvio. Neste último, Deus matou tudo o que estava vivo, repopulando a Terra com a mesma vida e os mesmos salafrários chamados Seres Humanos. Deus este que fez curso de Administração por encomenda, entende de projeção, reposição de estoque e relação custo-benefício. 
Se há um culpado pela natureza do homem ser o que é, quem mais seria? Afinal, Deus criou ou não criou todos os seres em estado de perfeição? Argumentadores dizem que o homem se corrompeu com o pecado. E coisa e tal. Mas daí precisaremos perguntar qual a origem do pecado. Quem criou todas as coisas? E o pecado? Satanás? Quem criou Satanás? Quem é o culpado da natureza de Satanás ser o que ela é? [Ânus de Satanás daqui a pouco]

"Deus não errou punindo a humanidade inaugurando o Inferno e deixando que Satanás esfole o briôco do pessoal, ao invés de simplesmente castigar a cobra fofoqueira?"

Essa é bem fácil. Deus monta um supercenário, faz o homem de barro, a mulher da costela dele, ensaia com a cobra, escuta atrás do arbusto e entra em cena com as falas na ponta da língua, fazendo um belíssimo trabalho de atuação interpretando tristeza, decepção e ira (com direito a poderes mágicos). Mas o desfecho da novela é punir os seres humanos? Cumacim? Se a cobra não for Satanás, ele tira o dom da fala de sua espécie - e em compensação manda os seres humanos para uma eternidade de sofrimento, angústia, tortura, fogo e ranger de dentes após uma morte lenta e dolorosa? Se a cobra for Satanás, então ele simplesmente deixa de puní-lo propriamente  e ainda DÁ O POSTO DE CHEFE DO INFERNO, o direito e esfolar o briôco da humanidade por uma eternidade e o de colocar obstáculos em suas vidas? Caramba! Que Deus maravilhoso!

"Deus não errou em fazer o homem de barro, sendo que Darwin disse que ele evoluiu do macaco?"

A posição oficial da Igreja Católica Apostólica Romana a respeito do assunto, caso você não saiba, é incompreensivelmente à favor da Teoria da Evolução. Os papas Pio XII, João Paulo II e Bento XVI (um, dois, TRÊS papas), defenderam que a evolução é "uma ideia válida para o desenvolvimento dos seres humanos", "mais do que uma hipótese", "compatível com a cristandade". Aparentemente, a Teoria da Evolução não diz que Deus não existe. E não diz mesmo. Mas a Igreja propõe o chamado "Design Inteligente", onde Adão, Eva, serpente e o capiroto estariam de mão dadas com a Evolução. O que por acaso consegue ser ao mesmo tempo tremendamente infantil, anticientífico, tendencioso e hilário. Por que? Porque o ponto central da Teoria de Darwin é que Deus é completamente inútil ao processo da evolução, por isso mesmo chamado Seleção Natural, não Seleção Divina. Deus pode ter algo haver com a natureza, claro. Mas com a Evolução, não. Esta sendo minha teoria científica preferida, eu não poderia deixar de deixar alguns pontos claros:
"Teoria" é um termo técnico, diferente de hipótese. Todas as descobertas científicas que regem o progresso da humanidade até hoje levam o nome de "teoria": Teoria do Big Bang, Teoria das Cordas, Teoria da Relatividade, entre outras, que de tão confiáveis e aplicáveis nem levam mais o termo: Teoria Hipocrática da Medicina, Teoria da Matemática Euclidiana, Teoria do Movimento Planetário, Teoria Heliocêntrica, Teoria da Ondulatória, Teoria Termodinâmica, entre muitas outras. 
O ser humano não veio do macaco. Ambos têm um ancestral longínquo em comum. O que faz de nós primatas tanto quanto os orangotangos e gorilas. O chimpanzé tem 99,4% da estrutura de seu DNA idêntico ao nosso. Esses 0,6% é o que os impede de falar, construírem prédios, ter uma cultura.

O Ânus Fustigado de Satanás

Existem dois diabos, só que um parou na pista, um deles é o dos toque, o outro, quele d'O Exorcista Em "Rock do Diabo", o mestre Raulzito fala brilhantemente de Lúcifer, e do Diabo também. Raul sabia que o o Diabo é uma mistura de Baphomet, Shaitan e o Rei Tritão da Pequena Sereia que a Igreja Católica demonizou porque eram adorados pelas pessoas que ela queria que pagassem dízimo. O diabo que parou na pista é o dos toque, aquele da sabedoria, inteligência, pensamento crítico. Lúcifer quer dizer aquele que tem a luz. É a divindade que os satanistas (alguns) adoram. Não sou satanista, antes que me pergunte. 
.........

O Problema do Mal é patrocinado pelo Paradoxo de Epícuro:  

Deus quer prevenir o mal, mas não consegue?
Então ele não é onipotente
Ele consegue, mas não quer?
Então ele é malevolente.
Ele quer e ele consegue?
Então por que o mal acontece?
Ele não quer e não consegue?
Então por que chamá-lo de Deus?

Pois é, né. Quer dizer então que Deus errou no projeto dos Dinossauros, destruiu os coitados; aparentemente, também errou no projeto dos anjos, mandou Satanás picar sua mula do Paraíso; errou no projeto dos seres humanos, castigou-os com o trabalho, morte e o mal; também errou no projeto de cobras, e hoje elas não dão nem um pio. Mas ele não erra. Nem existe. Não dessa forma. Deus é uma hipótese, diferente de Teoria.

Até mais, cabritos andarilhos dos trilhos de trem ~

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Jornada ao Centro do Ego

Zen, zazen, zafu, shashu, gasshô, kinhin. Bodisatva, mahasatva, maha, prajna, paramita. Concentração. Sensação, conceituação, diferenciação, vazio o são.

Termos que vem se acrescentando ao meu vocabulário nos últimos meses - desde março frequento uma sanga (comunidade) zen-budista. Para dar nomes aos bois e não trocarmos as bolas, Zen-Budismo é uma tradição budista, uma das vertentes do Budismo. Poderia perfeitamente ser chamado de Budismo Zen. Afinal, ninguém chama o Budismo Tibetano de Tibetano-Budismo."Zen" antes, e com hífen, está ali somente pra complicar nossas vidas. Quero um linguista pra me explicar essa história. Enfim...

Lá se ia eu, pelo que eu me lembre, no ensolarado dia de 23 de Março de 2014, andando em direção ao número 2645 da Vasconcelos Costa em Uberlândia. Em casa, o Google Maps estimara que a viagem de 6 quilômetros e meio duraria algo entre "tempo pra cacete" e "uma era mesozóica".

Vinha dizendo para meu pai que pretendia experimentar o budismo, quanto mais dizia, mais ele pretendia me enfiar na cabeça de que só Cristo salva. Certas diferenças ideológicas, vamos combinar... Depois de uma ou duas conversas ele desistiu, resignou-se a dizer que eu era lelé. O interessante é que ele me deu a contribuição para a sanga naquele dia. Está claro que meu pai não conhece, não aprova nem patrocina, mas ao menos consegue conviver com a minha frequência nos encontros de meditação sem maiores reações do que comentar baixinho suas opiniões durante a janta. Isso é um progresso.

Minha madrasta, bem, debochou e riu de mim, dizendo que eu queria chamar atenção por causa de assuntos mal resolvidos entre eu e meus pais. Também tentou me converter às pressas ao Cristianismo, de uma forma menos eloquente que meu pai, e sem sucesso. Não sei que tipo de assunto mal resolvido com meus pais me levaria a mudar minhas convicções sobre Deus e o mundo, mas tentei relevar esses comentários (acusações) e tentar ter uma verdadeira conversa sobre o assunto. Tanto minha madrasta quanto meu pai nunca haviam conversado comigo sobre o que eu penso da vida, exceptuando-se uma vez que discuti com meu pai sobre O Problema do Mal bíblico, e nunca saímos da estaca zero nesse assunto. Tudo bem, afinal, isso não muda muita coisa, nem faz muita diferença. 

Naquele dia eu imprimi o mapa, e saí andando com mais de uma hora (talvez duas) de antecedência, pra garantir. Cheguei suado, com sede, garrafinha d'água vazia. A responsável pela comunidade (e dona da casa) me recebeu fazendo uma reverência que eu não entendi, nem perguntei, nem expressei reação. Depois que outros chegaram eu notei a gafe. Era o gasshô, cumprimento ao estilo japonês. 
Durante a hora que se seguiu, meditamos por dolorosos e inquietantes vinte minutos, uma das únicas eternidades que já cheguei a experimentar; recitamos um sutra e bebemos suco verde, uma cortesia saudável de uma frequentadora. Como todas as coisas saudáveis, era horrível mas bebível. O tempo me ajudaria a me acostumar com o gosto. 

Meu interesse pelo Budismo surgiu do período "montanha-russa religiosa" que os senhores bem lembram. Foi o tempo em que me abri para novas experiências religiosas a fim de satisfazer minhas inquietações. 

Vi no Budismo uma religião assustadoramente atraente: não existe menção de um Deus a servir; somos nossos próprios mestres; não deveríamos julgar algo como verdade nem mesmo se alguém que admiramos muito (como o Buda) nos disser - temos que testar para comprovar, ver para crer; o objetivo não é conseguir algo místico ou extrassensorial, mas simplesmente a harmonia, felicidade e aceitação para com a vida; as práticas são simples; o que aprendemos delas é complexo; a filosofia é extensa, implora para ser devorada; existiu historicamente um camarada chamado Sidarta Gautama que ensinou essas coisas. 

Muitas pessoas, creio que boa parte delas, se sentem atraídas pelo Budismo pelo mesmos motivos. Mas desse modo, vendo minhas próprias intenções e pontos de vista externalizados, consigo estar ciente de como isso pode ser danoso.

Veja, existe uma discussão sempre recorrente: "O Budismo é uma religião? Não tem Deus no negócio". Mas pra ser religião, carece ter um Deus no negócio? Como bem lembra Monja Coen, religião vem do latim relegere da mesma forma que vem do latim religare. "Religare" quer dizer, obviamente, "religar" (ligar algo com algo, homem com o divino), e "relegere" quer dizer "reler", "releitura" (ler algo novamente, ver o mundo de outra forma). As pessoas geralmente consideram o religare, e ignoram o relegere, tentando se justificar dizendo que seguem uma filosofia chamada budismo, e não uma religião chamada budismo, porque uma religião tem seres místicos, crenças e superstições, e queremos nos distanciar dessa imagem o máximo possível. Sentimos a necessidade de diferenciar o zen-budismo dos outros tipos.

O que me causa um certo desconcerto. Um dos motivos cruciais que me levaram a me distanciar das outras religiões é a diversidade de pontos de vista. Segundo eu mesmo, a Verdade Incontestável da Vida, do Universo e Tudo Mais deve ser imutável, e não sujeitável ao bel-prazer da mente humana, usando como justificativa desculpas esfarrapadas intituladas "Teologia". O Budismo é uma religião bastante diversa, portanto, não estou eu sendo hipócrita? Talvez!

Mas o fato do budismo ser um barato muito doido entre uma filosofia e uma religião se explica: Buda criou uma filosofia, e seus seguidores, os aspectos religiosos. Uma coisa está dentro da outra, adquirindo um caráter indissociável. 
Uma religião que proclama ser a Verdade tem de ser no mínimo coerente. Felizmente, o budismo não tem tal pretensão, em vez disso, o que diz é que temos que descobrir o que quer que seja por esforço próprio, como Buda fez, e mesmo duvidar de sua própria palavra.
Uma filosofia, por outro lado, pode e deve ser revista, reavaliada, reinterpretada e novamente esclarecida, concisamente. Isso pode explicar a pluralidade de pontos de vista budistas. Por exemplo, existem várias correntes budistas, como a tibetana, que prega a reencarnação (ou renascimento). 

O zen-budismo, ao menos pelo o que eu sei/leio/observo, não. Pelo menos não da mesma forma. Para o zen-budismo, você renasce várias vezes na sua vida, a partir do momento que passa por suas experiências, muda seus pontos de vida e sua mente. O carma nada mais significa do que Lei de Causa e Efeito, em outras palavras, a explicação de como você colhe o que planta. A vida e morte são dois aspectos não conflitantes da existência, num estalar de dedos, vida e morte acontecem milhões de vezes, por isso não devemos desejar uma ou odiar a outra, tampouco supor que acontece algo, ou que algo acontece depois que a morte chega, ou depois que se vai. O que se diz é que depois que a Roda da Vida para pra você, continua girando pro resto, e que você é o resto, o resto não é separado de você.

Posso estar sendo incoerente por pensar assim, posso estar criando um conforto pra mim mesmo pensando que por ser uma filosofia também, pode ser contraditória no que diz. E por conta disso, me livro das ditas premissas danosas as quais me referi ali em cima. Olho agora com outros olhos as religiões teístas. Novamente.

Estou olhando para os benefícios que o budismo me traz. Perceber a realidade como ela é, é o principal, senão o único. E é um aprendizado constante, na recitação de sutras, na meditação, e também  na convivência. Um exemplo:

Quando a primeira reunião terminou, todos estavam indo embora, e na minha cabeça, desde que a reunião começou, eu queria o reconhecimento de que andei os 6 quilômetros e meio. Quando Myoden (a responsável) me perguntou de que eu tinha vindo, eu disse "com as pernas e com força de vontade". Eu queria que as pessoas dissessem que era uma atitude, não sei, heroica, e ao mesmo tempo, não queria dar muito na vista esse desejo. E elas disseram. Menos a Myoden. A Myoden não. A mesma frequentadora do suco verde me ofereceu dinheiro pra eu voltar de ônibus. Mesma história, querendo pegar, mas não querendo dar muito na vista. De certa forma, esperei, sem dizer nada, que a Myoden fizesse algo, me oferecer dinheiro, me dar uma carona, alguma coisa. Não.

Talvez ela não quisesse ou não pudesse dar dinheiro, ou achasse muito pedante me oferecer carona até meu bairro àquela hora, sendo essa minha primeira visita, ou ainda me mostrar o aspecto militaresco tão próprio do zen-budismo. Ou ainda, me dar aquelas lições ao estilo "passa cera, tira cera, gafanhoto". Estávamos na rua, ela me deu um abraço, se despediu e entrou.  Esse silêncio rondou minha cabeça por muitos dias. Não que eu estivesse preocupado, ou estivesse cobrando-a mentalmente, mas foi curioso. Afinal, ela foi extremamente gentil o tempo inteiro. Não me ocorreu a resposta. 

Um dia eu li uma tirinha zen, estrelando se não me engano Bodidarma, um carinha que viajou da Índia à China a pedido do imperador chinês, pra divulgar o budismo lá. O imperador perguntou a ele qual seria o mérito de tê-lo trazido ali e arranjado imagens budistas, altares, e feito tudinho nos trinks pra divulgar o glorioso "Darma de Buda" em suas terras. Bodidarma simplesmente respondeu "mérito nenhum". Aí eu esqueci dessa tirinha, passaram-se vários dias.
Uma bela noite eu estava meditando em meu quarto e de repente me levantei de súbito, juntando as peças. A atitude da Myoden serviu como um koan silencioso, sendo ou não sendo. 

Não há mérito.

Não tem de haver mérito.

O objetivo de se transpor as barreiras que me são impostas é simplesmente transpô-las, não ser vangloriado por fazê-lo. Afinal, as barreiras não foram postas ali especialmente para mim, nem sequer foram postas, as barreiras estão ali porque existem, e se eu realmente quiser não ser barrado, é impossível eu não ter a obrigação de transpô-las, mas sem desejo a mérito, sem reconhecimento, porque todos tem suas barreiras, tanto menores quanto maiores que as minhas. Se o imperador chinês quis divulgar o Darma de Buda em suas terras, haveria ele de querer ser reconhecido por tal atitude? Ele quis divulgar o Darma, ou divulgar a si mesmo? Se ninguém da minha família aprova, se não querem colaborar, e se isso dificulta as coisas pra mim... e daí? Se eu realmente quero não devo olhar para as barreiras como incapacitantes, nem para suas superações como dignas de reconhecimento, porque quem quer sou eu, portanto quem criou as barreiras, mesmo que indiretamente, fui eu. 

Isso se estende para tudo. Percebi que eu sou assim, mesmo inconscientemente ou não querendo dar muito na vista, quero mérito em tudo. Quando me elogiam, fico no dilema entre concordar, discordar, ignorar ou mudar de assunto. Mas fico acuado dessa maneira porque não entendo o que nesse caso significa concordar, discordar, ignorar ou mudar de assunto. Eu sei que não sou melhor do que ninguém. Mas não entendia o porquê. A partir de agora tentarei ser mais humilde, realmente humilde, já que não dava muito na vista que eu de certa forma não era.

Isso também se aplica para ser ateu e pensar que religiosos são inferiores, ser ateu & budista e pensar que as outras pessoas estão perdidas/erradas/desperdiçando a festa. Mesmo que seja bem lá no fundo. 

O Budismo está se saindo melhor que a encomenda, uma experiência única e estimulante, talvez impermanentemente, mas que já conseguiu mérito comigo.

Até mais, cabritos andarilhos dos trilhos de trem ~

Gasshô _/\_