sábado, 28 de abril de 2012

A Sociedade Depois de Cristo

 O assunto do qual eu vou falar agora é muito polêmico. Talvez o mais polêmico que existe. Há tantas divergências de opiniões, pontos de vista e conversas pra boi dormir em volta dele, que com certeza alguém vai me criticar.


 Seguinte, hoje eu estava vendo Raul Gil. Têm uma menininha de uns 5 anos de idade lá que canta (ou faz o possível) gospel e é evangélica. Estava acontecendo uma entrevista com o Léo Santana, do Parangolé, naquele quadro em que as crianças entrevistam os famosos com perguntas escritas pela produção.

 Até que surgiu o assunto da dança. A menina disse que ela não gostava da dança, que Jesus não gosta da dança por isso ela também não gostava, que dançar não é de Jesus e que Jesus só gosta que sirvam a ele. Desse mesmo jeitinho.

 Eu fico indignado e até impressionado com o que conseguem implantar na cabeça das crianças hoje em dia. Não só nas crianças, mas na sociedade em geral. É uma lavagem cerebral sem sentido nem escrúpulos.

 Se a criança não dança ou não faz o que quer que seja, é por que OS PAIS não querem, e não por que Jesus disse que não pode. Jesus no momento está tão ocupado fazendo tantas coisas interessantes e por tanto tempo que acho que nem sabe se a menina dançou ou deixou de dançar, cantou ou deixou de cantar, morreu ou deixou de morrer.

 As pessoas realmente acreditam que devem mostrar que amam e são devotos de Deus, mesmo sem nunca ao menos ter lido a Bíblia ou conhecê-la de alguma forma, pelo simples fato de não serem excluídos da sociedade. Um exemplo disso são aquelas imagens do tipo "Eu amo Deus, se você também ama, compartilhe", ou "Obrigada, Jesus, por mais um dia" num status. Em toda essa minha curta vida tenho mentalidade o suficiente pra ter certeza de que Jesus não tem Facebook, e se tivesse, garanto que não perderia tempo lendo status de pessoas dos quais provavelmente sabe que o sentimento não é verdadeiro. Esse tipo de pensamento cega as pessoas do real sentido das coisas em que tentam acreditar.

 A Igreja é outra coisa que só existe para manipular essas pessoas, criando e se fazendo agir de acordo com um sistema - o que também não explicita nenhum tipo de pensamento racional. Exemplo: a Bíblia diz "Crescei-vos e multiplicai-vos", portanto, os padres pecam nessa parte. E é exatamente por isso que existem tantos aliciando criancinhas por debaixo da batina.

 Por isso tudo as pessoas se sentem obrigadas a ir à igreja, a fazer tudo o que ela manda e a criticar quem não faz o mesmo. Mesmo não tendo a menor ideia do por quê, mesmo não conhecendo outra forma de pensar, mesmo nunca tendo lido a Bíblia. 

 Se uma pessoa diz que é ateia já é vista de outra forma, muitas vezes criticada pelas costas. Defendo que cada um tem um ideal em que acredita, seja pantera, hippie, beatnik, católico, budista ou protestante. 

 Aí virá sempre aquele cabrito andarilho dos trilhos de trem dizendo "Ah, então você é ateu? Eu não sabia". Eu não sou ateu. Na verdade nasci num berço evangélico, do tipo bem evangélico, sabe como é? Que faz tudo isso que eu acabei de citar. Eu sigo a Igreja, mas não sou escravo dela.

 O fato de ser evangélico não me impede de ter minha própria ideologia. Tenho convicção de que posso e devo ampliar minhas ideias sobre a vida, seja acreditando na Ciência, seja lendo a Bíblia, lendo livros espíritas, budistas, e até mesmo o alcorão. O universo é muito grande para se levar em conta em uma hipótese só.

 Não quero que você pense sobre isso, só queria deixar clara minha opinião e posição sobre as religiões e suas firulas. Fui.
  

sexta-feira, 27 de abril de 2012

O Rebelde Independente - Capítulo 8

É necessário ler:

Rinha de Ibéricos.

 Enquanto as coisas em terras tupiniquins estavam indo de vento em popa, a prosperidade começava engatinhar e Dom João começava a reerguer sua família da falência distribuindo títulos de nobreza adoidado; as coisas do outro lado do Atlântico, para quem não possuía propriedades valiosas, quem não tinha no mínimo 5 escravos próprios,  quem estava falido economicamente, quem era desprovido de fortunas e tesouros, enfim,  quem era paupérrimo sem dinheiro algum; estavam terrivelmente pretas.

 Quando a Família Real saiu o mais que depressa possível de sua própria nação, junto com um monte de outros sangues-azuis ricos e poderosos, deixou os franceses a ver navios, daí a origem da expressão.

O ruim é que esses franceses não ficaram parados olhando com caras de bocós para os navios, o que seria um tremendo anti-depressivo para o povo português.

Vamos recapitular: Napoleão Bonaparte está conquistando toda a Europa, até que uma rainha teimosa decide não ceder as suas ordens, o ameaçando com um cascudo.

 A Inglaterra, como maior potência econômica e industrial do mundo, tem firmes negócios, acordos políticos e mercantes com a maioria dos países europeus. Como a Rainha não cede ao domínio francês, o que é um tremendo exemplo de coragem e estupidez, Napoleão resolve agir abalando a economia inglesa, decretando o Bloqueio Continental – fazendo com que não houvesse comércio entre britânicos e as demais nações européias.

Como você e eu sabemos, Portugal é um país europeu como todos os outros , porém foi o único a ter toda sua Corte  exilada em solo americano, deixando lusitanos sozinhos e desamparados - a iminente destruição chegava à galope com soldados espanhóis e franceses.

 Porém, como também sabemos, na monarquia existe esse negócio de família sangue-azul, arranjo de casamento e acordos entre reinos por parentesco de seus monarcas. Acontece que Dona Carlota Joaquina, esposa de Dom João, era filha do rei Carlos IV da Espanha.

 Aí você me pergunta, “por que diabos um exército de espanhóis estava indo atacar Portugal, se a filha do rei deles estava lá feliz da vida?”. A resposta é: um anão de cabeça chata e canelas finas, chamado Napoleão Bonaparte.

 Enquanto Dom João conversava com a Rainha por carta, Napinho organizava suas tropas que já estavam na Espanha, e obrigava o Rei a se retirar do trono:

-Mas nem que a vaca voe! – esganiçou-se Carlos IV.

-Até onde eu sei, a Rainha da Inglaterra não tem asas. Agora me dê essa maldita coroa e caia fora daqui. – disse Bonaparte.

-Não ofenda a Rainha na minha frente! – esganiçou-se um tom acima Carlos IV.

- Deixa eu te dizer uma coisinha: não adianta ficar mancomunado com a Rainha pra se opor a mim. Vocês fizeram o mesmo no Rossilhão, e nós dois sabemos que não deu certo. – retorquiu Bonaparte.

-Você só vai se apoderar do meu reino por cima do meu cadáver!

-Não seja por isso – disse Napoleão, apontando o primeiro rifle que achou por perto.

E foi assim que a Espanha também foi dominada por Napoleão Bonaparte.

...

Espanhóis e franceses, marchando desabalados para forçar o domínio napoleônico. Em parte pra não deixar todo mundo morrer, e em parte pra não deixar seus negócios irem pro ralo, a Inglaterra desembarcou reforços na Espanha e em Portugal.

 Foi o período que se denominou “Guerra Peninsular”, por se localizar na Península Ibérica. Mas aqui vamos chamá-la de Rinha de Ibéricos mesmo.

 A França, único galo da rinha, e o único que não era Ibérico, tinham um exército magnífico. Avassaladores, as tropas entraram em Portugal não encontrando nenhuma alma viva para guerrear, o que, portanto, fazia com que não houvesse motivos para serem avassaladores.

Chegando à Lisboa, o que conseguiram ver, e apertando os olhos, foram navios. Navios estes que já estavam a quilômetros da terra firme, cortando os mares à procura de outra terra firme que fosse realmente firme, não desmoronando ao comando de um anão.

Jean-Andoche Junot era o nome do dito cujo general responsável pela dominação forçada sem carência de força de Portugal.

Os ingleses chegaram pouco depois deles, em  Agosto de 1808, e, já que todo o governo se escafedeu, tiveram que mobilizar o povo:

-Vamos, senhores, seu Rei está do outro lado do mundo, aceitem isso! – Disse Arthur Wellesley, responsável pela resistência Ibérica aos franceses.

-Não importa! Nós obedecemos SOMENTE a ele, não discuta! – Disse um senhorzinho rechonchudo de bigodes.

-Mas ele não está aqui para vocês o obedecerem! – insistiu Arthur Wellesley.

-Exato. Ele não pode nos mandar fazer nada, justamente por que não está aqui, portanto não fazemos absolutamente nada mesmo – disse o senhor rechonchudo.

-E o letreiro?

-Que letreiro?

-Esse letreiro – disse Arthur Wellesley, apontando pro letreiro do porto de embarque. – “aqui a Coroa Portuguesa se dirige a vós: tereis que ficar e lutar pelo seu país. Lutar e morrer pois não vamos fazer grandes investimentos nessa guerra”.

-Ah, esse letreiro... Certo, homens! Todos ponham-se de pé! Todos com suas armas! Todos seguindo Sir Wellesley! É hora de morfar!

O raciocínio é o seguinte: “Não basta ter sido falado ou encorajado. Tem que estar escrito em algum canto pra ser oficial.”

sexta-feira, 20 de abril de 2012

O Rebelde Independente - Capítulo 7

É necessário ler:

Arrumando a Casa

Não demorou muito para que os outros nobres seguissem os passos de Dom João e família, e começaram a tomar as casas dos cariocas.

Batiam na porta, e com toda a delicadeza despejavam quem estivesse dentro, com todos os seus pertences, para o meio da rua, depois entravam e colavam na porta:

PR

Prédio Roubado.

A Coroa Portuguesa lamenta a perda de sua casa, mas nós temos sangue azul e você não. Portanto, essa casa agora pertence a um nobre por tempo indeterminado. Acredite, não gostamos disso tanto quanto você.

Obrigado.

O que dizia mesmo o cartaz era somente PR, que significava “Príncipe Regente”, mas os termos mais legais que os historiadores conseguiram satirizar foram “Ponha-se na Rua” e “Prédio Roubado”, sendo o segundo meu preferido.

...

-Tu fizeste o quê? – perguntaram toda a Família Real em coro (Menos Dona Maria Louca que estava ocupada demais murmurando algo sobre vestidos rendados sob-medida do Botsuana, e como eles eram caros).

-Abri os portos para as Nações Amigas. – Respondeu Dom João.

Estavam todos sentados à mesa tão suntuosa quanto possível, jantando. O máximo conforto que conseguiram foi Quinta da Boa Vista, um parque onde se localiza um casarão (pra não dizer mansão), que pertenceu a Elias Antônio Lopes, que o cedeu de bom grado depois de perceber que estava falando com o Príncipe Regente que mandava na bagaça toda; aquele cara de trás da porta.

-Meu Deus do céu... - exclamou a tia de Dom João.

-Pois é – disse Dona Maria Louca.

-Eu não acredito... – exclamou a cunhada de Dom João.

-É, é realmente inacreditável – tornou a dizer Dona Maria Louca.

-Como pode ser! – protestou Dona Calota.

-Também fiquei indignada! – disse outra vez Dona Maria Louca.

-Olha o que tudo isso está custando! – gritou Maria Teresa.

-Foi isso que eu disse! – insistiu Dona Maria Louca.

-Por quê? POR QUÊ? –gritou de novo Dona Carlota , estupefata.

-Calma, gente! Foi só um vestido! – bradou Dona Maria Louca.

O status de “colônia” que o Brasil tinha, dava o direito a Portugal de controlar como e para onde os produtos oriundos daqui iam, assim como o dinheiro resultante, que geralmente acabava nos bolsos de sangues-azuis.  Porém, com a vinda da Família Real e a capital do Ultramar se instalando por aqui, o controle alfandegário foi quebrado e o Brasil pôde comercializar com qualquer país do mundo, o que fazia ser um suplício muito grande aos portugueses começar a aceitar o abandono completo da sua terra natal e a Inversão de Metrópole.

-Ora, pensem bem, Portugal não é mais a nossa casa... Estamos aqui agora... Isso foi necessário! – arriscou sensatamente Maria Isabel.

-Ela está certa – Pedrinho apoiou a irmã

-Mas pra você é fácil falar, não é? Vive de amores por estas terras... – acusou Maria Teresa.

-Papai sofreu pressões de todos os lados e ainda está sofrendo, agradeça por estar viva e segura por estas terras – disse Pedrinho, sublinhando a última parte. O que conseguiu fazer Maria Teresa foi somente fuzilar Pedrinho com os olhos semicerrados.

-Além do mais, a Abertura dos Portos para as Nações Amigas foi sugestão do conde de Linhares, e uma exigência da Rainha. – interpôs Dom João.

-Ah, claro, e com “Para as Nações Amigas” o conde quis dizer à Inglaterra, não é? – perguntou Maria Teresa, sarcasticamente.

-Bom, quem deu a idéia do nome fui eu... – respondeu Dom João.

 -Creio que “Abertura dos Portos para as Nações Usurpadoras” não seria um bom título – respondeu Pedrinho

...

Realmente, Abertura dos Portos beneficiou mais a Inglaterra do que qualquer outro país: para serem comercializados no Brasil, os produtos estrangeiros tinham uma alíquota de 24% a ser pagos; os de Portugal, 16%; e os da Inglaterra, 15%, o que foi reforçado dois anos mais tarde com o Tratado de Cooperação e Amizade entre as Coroas Portuguesa e Britânica. 

Por conta disso, num instante a economia luso-brasileira estava dominada pelos produtos ingleses, e o que era produzido aqui não tinha força.

Entretanto, muitos bons frutos foram colhidos: como a corte estava falida quando veio para as terras tupiniquins, conseguiu se recuperar consideravelmente; o Brasil deixou de ser realmente o que se pode chamar de colônia, e muita coisa mudou pra melhor.

 Foi criado o Banco do Brasil, a Casa da Moeda, a Imprensa Régia, a Academia Real Militar, a Biblioteca Real, o Jardim Botânico do Rio de Janeiro, diversas escolas medicinais e muitas outras instituições que melhoraram a vida da elite brasileira, transformando totalmente o cenário colonial – o que perdurou por muitos anos.

Esse período de mudanças, completamente esquisito para a época, foi chamado de Período Joanino. 



sábado, 14 de abril de 2012

A Vida ao Revés, por Charles Chaplin

Só leia e reflita.
"A coisa mais injusta sobre a vida é a maneira como ela termina. Eu acho que o verdadeiro ciclo da vida está todo de trás pra frente. Nós deveríamos morrer primeiro, nos livrar logo disso. 

Daí viver num asilo, até ser chutado pra fora de lá por estar muito novo. Ganhar um relógio de ouro e ir trabalhar. Então você trabalha 40 anos até ficar novo o bastante pra poder aproveitar sua aposentadoria. Aí você curte tudo, bebe bastante álcool, faz festas e se prepara para a faculdade.

Você vai para colégio, tem várias namoradas, vira criança, não tem nenhuma responsabilidade, se torna um bebezinho de colo, volta pro útero da mãe, passa seus últimos nove meses de vida flutuando. E termina tudo com um ótimo orgasmo! Não seria perfeito?"
-Charles Chaplin

sexta-feira, 13 de abril de 2012

O Rebelde Independente - Capítulo 6


É necessário ler:

Persuasão

 Salvador foi a primeira capital do Brasil. Fica situada na Bahia, estado regido pelas energias dos orixás e pelo ritmo do Axé inexistente do século XIX.

 Salvador, apesar de seu primeiro âmbito civilizado só começar na década de 1530, foi ocupada por “homens brancos” já em 1510, com a chegada de Diogo Álvares – o Caramuru.

 Fora o filme de Guel Arraes que passa na Globo uma vez por ano e que você já está careca de ver, a história de Salvador é salpicada de revoltas e dominação estrangeira.

 No final do século XVII, a Bahia se torna a maior produtora de açúcar da colônia, o que a torna de suma importância, já que o açúcar era o produto mais exportado do Brasil na época.

 Salvador foi sede colonial em três períodos distintos e complicados dos séculos XVI e XVII, que só existiram para complicar a vida dos estudantes; sede da Repartição Norte da colônia também nos séculos XVI e XVII, também criada para absolutamente nada; e finalmente ‘capital’ do Brasil entre 1621 e 1763.

 O Conde da Ponte (uma espécie de título de nobreza para “governador da capitania hereditária da Bahia”) foi o primeiro a descobrir onde viajara Dom João e o primeiro a ir tratar de assuntos políticos com ele, e é claro, puxar um pouco do seu saco antes que outros fizessem o mesmo. Afinal, ele conseguiu fazer isso tão bem que retardou o desembarque de todos os nobres, ricos e poderosos em dois dias (por que, creio eu, só poderiam sair depois do manda-chuva, no caso, Dom João).

 É, eu vou morrer agora. Pensou Pedrinho, que se sentia em um cárcere privado sem privadas.

 Cinco horas da tarde do dia 24 de janeiro de 1808. Os portugueses desembarcam na cidade cheios de pompa, solenidade, mau cheiro e viroses.

 -Escute o que eu digo, vossa majestade, sua melhor escolha para a capital do seu governo, como eu disse lá dentro, é aqui. Não tenha dúvida. – continuou o conde, tentando tirar proveito da situação, como todo bom político.

-É, sem sombra de dúvida, meu caro – disse Dom João, com um sorriso de orelha a orelha, o que significava que fora fácil e minuciosamente convencido pela lábia do conde.

Pedrinho, que estava enjoado, dolorido e cansado demais pra prestar atenção na conversa entediante e bajuladora que seu pai teve com o conde, ficou repentinamente atônito.

-Como assim aqui? – perguntou, enquanto saía do barco junto com Miguel, atrás dos dois. O conde e Dom João viraram-se, surpresos.

-Ora filho, a Bahia já foi muito importante, e ainda é, visto que a cana-de-açúcar e o algodão são abundantes por aqui. Portanto, eu e o conde pensamos em, ao invés do Rio de Janeiro, que é a sede da colônia há mais de 30 anos, fosse Salvador a capital do reino. Poderíamos fazer grandes coisas por aqui, sabe? – disse Dom João, mas antes que pudesse terminar de explicar sua decisão, que já virara uma sugestão, foi interrompido por Pedrinho.

-Ah, pai, vai dar não. Eu realmente quero ir para o Rio.

-Mas, meu jovem, pense em todas as possibilidades de viver aqui e... – tentou o conde, sem sucesso.

-Ah, papai – disse Pedrinho, contornando as palavras do conde – eu já pensei nas possibilidades de morar na Bahia, e não seriam nada úteis para o reino.

-Nada úteis? Mas do que tu estás a falar, afinal? – perguntou Dom João

-E o senhor ainda pergunta? – disse Pedrinho, persuasivamente maroto – Imagine eu, que tenho um fraco hereditário para ser convencido facilmente com algumas curtas palavras, num canto como esse, onde todo mundo tem um poder de convencimento terrível?

 “Não sei se o senhor sabe da cultura baiana, papai, mas imagine só: eu, um dia, como Rei de Portugal, Brasil e Algarves, governando todo largado, relaxadão numa rede, bebendo água de coco e comendo vatapá. Eu teria visitas regulares de mulheres baianas de vestidos rodados que fazem preces pra orixás, lá no palácio. Agora imagine uma crise financeira terrível, e eu não saiba mais o que fazer, e recorro para as galinhas pretas e às encruzilhadas

 “Imagine também, um dia desses no palácio, e eu resolvo fazer uma festinha e chamo os amigos da capoeira, com os atabaques e berimbaus, cantando paranauê pra Deus e o mundo ouvir”

-Está bem, está bem, certo, tu vencestes. – disse Dom João, vencido e contentado, apesar de não ter compreendido uma palavra que o filho dissera – conde, sinto dizer que os nossos negócios acabaram de ser rompidos, até mais ver. – disse ao Conde da Ponte, que agora roubara o ar atônito de Pedrinho com tanta veemência que dava dó.

 Rio de Janeiro, aí vamos nós, pensou entusiasticamente Pedrinho.

...

No momento em que viu que estavam voltando pro navio, Pedrinho soltou uma interjeição de horror, devia ter ficado quieto.

E devia mesmo, a liberdade que estava ali, tão próxima para ser saboreada, foi levada para um longínquo tempo futuro, que seria um mês e meio depois. Os enjôos, cansaço e piolhos se intensificaram nesses um mês e meio.

...

Cidade maravilhosa,
Cheia de encantos mil!
Cidade maravilhosa,
Coração do meu Brasil!

Com certeza você conhece essa marchinha de carnaval dos anos 30. Logicamente, por ser dos anos 30, não existia em 1808, mas expressava perfeitamente o que Pedrinho sentia ao cruzar o litoral do Brasil, em busca do Rio de Janeiro maravilhoso e cheio de encantos, como dizia a marchinha que ele não conhecia.

-Estou doido para falar carioquês! – exclamou Pedrinho para Miguel, mas este não pode responder.

-Cario o quê? – perguntou Dom João, admirado.

-Isso mesmo papai, carioquês. É como eles chamam o sotaque dos cariocas – explicou Pedro.

-Ah, sim... E o que tu vês de tão especial nesse sotaque adocicado que ficam a falar por estas terras?

-Ora, eu não tenho nada contra esse sotaque, papai... Pensei, se vou viver por aqui, tenho que falar como os daqui, não é verdade?

-Certo. – disse Dom João, vencido pela segunda vez – Mas ainda não sei o que você vê nessas terras...

Tinham acabado de parar, e como Pedrinho, Miguel e Dom João estavam no convés, dava pra ver a cidade maravilhosa de pertinho.

-Está fedendo. – comentou Dom João

-Pois é, o senhor devia fazer algo sobre isso, as pessoas são pobres e fétidas, portanto nã...

-Não, alguém realmente está com sérios problemas intestinais, devíamos sair o mais depressa que possível daqui – sentenciou Dom João, com o nariz tapado.
Desembarcaram todos, no dia 8 de março de 1808.

...

Assim que se libertaram do cárcere, tiveram tempo o suficiente para perceber que não tinham ao menos onde se encarcerar.

Portanto, pensou Dom João, podemos dormir por aqui até construírem um palácio decente pra gente. E com “por aqui” Dom João pensava na sarjeta.

-Nem pense nisso, querido. – Disse Dona Carlota Joaquina, que acabara de se materializar ao lado do esposo e filhos, juntamente com todo o resto da família (menos Dona Maria Louca, a qual se incumbiu de permanecer na nau, obrigando os marinheiros a levá-la de volta a Portugal por que se esquecera de um vestido).

-O-oque? – gaguejou Dom João.

-Por acaso acha que vamos dormir ao relento, num lugar como esse? Podemos ser assaltados!

-Mas como é que...

-Querido, vamos pegar as casas deles. Pronto.

-Hã? – exclamou Maria Teresa, a filha mais velha – Mãe, essas casas são desprezíveis!

-Se prefere dormir no chão, para mim não há problema – retrucou Dona Carlota.

-Tá, está bem. – murmurou Maria, indignada

Dom João sentiu que alguma coisa estava lhe faltando, algo muito importante, uma lacuna vazia que tinha que preencher. De repente se lembrou, então, que ele era a autoridade por ali, e que também podia persuadir pessoas.

-Eh, por favor, pode nos deixar ficar com sua casa? – disse ele, após bater numa porta e falar ao homem que surgira atrás dela.

-E por que eu faria isso? – disse o homem.

-Por que eu sou João Maria José Francisco Xavier de Paula Luís António Domingos Rafael de Bragança, Príncipe Regente de Portugal. – era o mais persuasivo que ele conseguia ser, e aparentemente era o que bastava.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

O Rebelde Independente - Capítulo 5


É necessário ler:

Necessidades Fisiológicas

Pedrinho ficou maravilhado com a idéia de morar no Brasil. Começou a adorar o Bloqueio Continental e teve vontade de tascar um beijo na boca em Napoleão Bonaparte. Estava finalmente indo para a terra do futebol, do samba e da alegria, embora os três ainda não existissem. A melhor expectativa que tinha era substituir o sotaque enamorado que não fazia seu tipo, pelo famoso carioquês, também inexistente naquela época.

 À partir do momento em que pisou os pés no navio  sentiu que uma nova era de possibilidades se abriam no horizonte, do outro lado do Atlântico. Sentiu algo fervoroso,  algo que o dizia que alguma coisa importante iria acontecer, algo que marcaria para sempre duas nações. Foi ao banheiro, porque percebeu que o que estava sentindo era dor de barriga.

 Na verdade, a idéia que se tinha de banheiro em navio no início do século XIX, é completamente diferente, estranho, e inimaginável nos dias de hoje. Não tenho a mínima idéia de se aquilo era ou não constrangedor à época, pelo fato de serem nobres e pelo fato de ser tão comum fazer aquilo em matéria de embarcações. Mas as “casas de banho” (banheiros) ficavam a céu aberto, no convés – mais especificamente na amurada dos navios – onde a pessoa ia, despia as calças e se curava da dor de barriga.

 Aliás, toda a infraestrutura dos navios era completamente horrível comparada ao que se ia ver 200 anos depois: além das necessidades fisiológicas serem ‘realizadas’ com toda aquela espontaneidade, dando pra se reparar nas eventuais manchas simpáticas nas laterais dos navios, não havia mudas de roupas de baixo (conveniente, já que ninguém podia tomar banho); não havia privacidade alguma (nota-se, já que cagavam pela borda do navio), todos dormiam amontoados, e alguns ainda tinham que dormir no convés, sem nenhum tipo de conforto, sendo molhados ocasionalmente pela água salgada do mar.
Sem contar que, com toda essa gente, - confortavelmente instalada, abrigada e límpida – amontoada num canto só, havia a proliferação de doenças, vírus, pestes e pragas que surgiam de tudo quanto é lugar. Um episódio engraçado nessa viagem foi a infestação de piolhos que houve em um dos navios, obrigando a senhora primeira dama de Portugal e suas filhas, junto com todas as outras mulheres que nele estavam, rasparem a cabeça todinha.

 Além de sofrerem com a falta de higiene e condições de saúde adequadas, sofreram as conseqüências da ganância material, que afinal todo ser humano tem. Na pressa de fugir da guerra e de arrastar todos os pertences, dinheiro e obras de arte que possuíam, se esqueceram da maioria dos mantimentos e víveres necessários pra suportar alguns meses trancafiados em um navio que atravessaria um oceano inteiro – chegando a ter que pegar emprestado dos ingleses.

 10 segundos depois de saber o que precisava fazer pra se livrar daquela dor de barriga perigosíssima, Pedrinho começou a querer arrebentar Napoleão Bonaparte com um taco de beisebol novamente.

...

 A viagem já parecia torturantemente interminável nos primeiros minutos. Mas ia ser muito pior.

 Como as embarcações da época dependiam da forças dos ventos ou correntes marítimas, não havia previsão de chegada – poderia durar menos que o esperado, e mais do que o previsto, fazendo assim com que não existisse nem esperado nem previsto.

Como era muito entediante ficar num navio cheio de gente fedida e igualmente entediada, Pedrinho divertia-se chateando seu pai, perguntando quando chegariam. Este respondia calmamente, todas as vezes que lhe perguntava, ”Não sei”– na verdade ele respondia isso com muita freqüência, pra qualquer pessoa e pra qualquer pergunta, mas tinha carinho especial com Pedrinho, que era o herdeiro do trono.

 Pedrinho e Miguel, junto com Dom João e Dona Maria Louca, viajavam (por segurança dinástica hereditária) juntos na nau capitânia Príncipe Real. Dona Carlota Joaquina e mais quatro princesas velejavam na fragata Alfonso de Albuquerque. A tia e cunhada de Dom João, duas personalidades sem importância que não foram citadas, viajavam na Príncipe do Brasil e, por fim, duas princesas do meio largadas na Rainha de Portugal.

...

 A duradoura viagem começa no dia 29/11/1807, deixando os franceses a ver navios em Portugal.

 O caminho é cabeludo, houve duas tempestades que dispersaram os navios, obrigando a se reagruparem nas duas vezes, em 30/11 e 08/12.

 Avistam a Ilha da Madeira em 11 de dezembro.

 Pedrinho perdeu a noção do tempo, o tédio já virara desespero, e a impaciência uma tortura.

 Finalmente, nos 5 minutos agonizantes antecessores à sua morte, anunciaram terra à vista. O dia era 18 de janeiro de 1808, chegam à costa da atual Bahia, e no dia 22 chegam em Salvador.